Olay Duzgun/DHA-Depo Photos/AP
Olay Duzgun/DHA-Depo Photos/AP

Caçada surreal a jornalistas turcos 

Profissionais do turco ‘Cumhuriyet’ podem ficar 43 anos presos por colaborarem com o grupo Gulen, que denunciaram 

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 05h00

À procura de um lugar na apinhada sala de audiências, inúmeros parentes e advogados se comprimiam para passar pela cerca de metal armada por seguranças. O local reservado aos réus também estava cheio. Os 17 jornalistas cujo julgamento teve início no dia 24 constituíam o núcleo da redação do Cumhuriyet, mais antigo jornal da Turquia e um dos poucos órgãos de imprensa do país que se recusaram a baixar a cabeça para os desmandos do presidente Recep Tayyip Erdogan. O processo – que até para os padrões turcos é considerado uma perversão da Justiça – pode resultar na condenação de cada um dos 17 a penas de até 43 anos de reclusão por “colaborar com uma organização terrorista armada”.

Entre os acusados, está Ahmet Sik, que há décadas é uma pedra no sapato do Estado turco. Nos anos 90, Sik investigou o desaparecimento de pessoas no Curdistão turco, a prática de tortura em penitenciárias e o assassinato de jornalistas (incluindo seu amigo Metin Goktepe, morto por policiais). Ele acumula diversos embates com autoridades na Justiça, tendo sido processado por difamar o Exército, o governo e políticos. Nos anos 2000, foi um dos primeiros a documentar a infiltração nas forças de segurança turcas por uma irmandade islamista conhecida como Movimento Gulen. Em 2011, quando tentou publicar suas descobertas, a polícia apreendeu exemplares de seu livro; procuradores ligados aos gulenistas o colocaram na cadeia. Sua detenção se estendeu por mais de um ano.

Na época, o governo de Erdogan, que havia somado forças com o movimento, defendeu a prisão de Sik. “Às vezes, um livro é mais perigoso que uma bomba”, disse Erdogan. Os alertas do jornalista acabaram se mostrando premonitórios. Em 2013, o governo turco e os gulenistas entraram em rota de colisão. Muitos acreditam que integrantes do movimento no Exército lideraram a tentativa de golpe ocorrida em julho do ano passado.

A premonição de Sik não o livrou da ira de Erdogan. Mais de 50 mil pessoas foram presas nos expurgos que se seguiram à tentativa de golpe. Em janeiro, foi a vez de Sik voltar à prisão em que permanecera encarcerado anos antes, onde se juntou a outros dez colegas do Cumhuriyet. O grupo tem direito a apenas uma hora por semana com seus advogados, diz a mulher de Sik, Yonca Verdioglu. As conversas são filmadas e ocorrem na presença de um segurança. Sik não pode receber nem enviar cartas. Por incrível que pareça, os jornalistas são acusados de colaborar com os gulenistas, cujas atividades muitos deles ajudaram a revelar.

Pressão. O diretor-executivo do jornal, Akin Atalay, que passou quase nove meses preso, diz que o processo é uma tentativa de silenciar o Cumhuriyet e intimidar outros veículos. A denúncia, redigida num linguajar orwerlliano cada vez mais comum entre as autoridades turcas, afirma que os jornalistas prepararam o terreno para o golpe ao jogar a opinião pública contra o governo. Um antigo editor do jornal é acusado de ter feito isso com a revelação de que a inteligência da Turquia estava enviando secretamente armas para insurgentes sírios. A um colunista veterano imputa-se a tentativa de “criar a impressão de que há um governo autoritário na Turquia”.

O grosso das “provas” levantadas contra os jornalistas consiste em seus textos. Muitos são acusados de se comunicar com pessoas que usavam o aplicativo de mensagens ByLock, popular entre os simpatizantes do gulenismo. Receber mensagens de usuários do ByLock passou a ser considerado prova incriminatória. Usuários do aplicativo foram indiscriminadamente demitidos e presos. Numa reviravolta que já não parece anormal no país, um dos procuradores responsáveis pela investigação sobre o Cumhuriyet agora é acusado em outro processo judicial de envolvimento com os gulenistas.

Lideranças do partido de Erdogan, que no passado ignoraram os alertas sobre o movimento Gulen, queixam-se de que o mundo não leva a sério suas preocupações com o grupo. Mas o governo não ajuda a conferir credibilidade às queixas. Nas últimas semanas, pelo menos 15 indivíduos foram detidos por estarem vestindo camisetas estampadas com a palavra “herói”, que a polícia suspeita tratar-se de uma mensagem secreta de apoio aos gulenistas. Também foram detidos, sob a acusação de terrorismo, ativistas de direitos humanos, como a diretora da seção turca da Anistia Internacional, Idil Eser, e o alemão Peter Steudtner.

O episódio causou grande tensão com a Alemanha. O ministro das Relações Exteriores alemão recomendou que os cidadãos de seu país não viagem à Turquia, propôs a suspensão da ajuda que a União Europeia fornece aos turcos e sugeriu que sejam canceladas as garantias de crédito oferecidas a empresas que desenvolvem atividades na Turquia. Autoridades berlinenses revelaram que o governo turco solicitou que fossem investigadas quase 70 companhias alemãs, incluindo Daimler, Siemens e Volkswagen, por “ligações com grupos terroristas”. Depois, o pedido turco foi retirado.

A declaração inicial de Sik no julgamento dos jornalistas foi uma potente resposta a Erdogan, a quem Sik denuncia por promover um “pogrom” contra a liberdade de pensamento. Foi também uma ode ao poder do jornalismo. “Consegui ofender as autoridades judiciárias de todos os governos de todos os períodos”, disse. E prosseguiu: “A contradição irreconciliável entre nós (jornalistas) e aqueles que querem sufocar a verdade nunca terá fim.”

Observadores veem no julgamento uma oportunidade para que o Judiciário turco se posicione contra o governo autoritário de Erdogan. Verdioglu não tem essa esperança. “Não há mais Justiça neste país”, lamenta a mulher de Sik. /TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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