Cadáveres latino-americanos

Digam o que quiserem de Hugo Chávez, mas o presidente venezuelano sabe como poucos apropriar-se dos holofotes. Doente de câncer, com a economia em baixa e a oposição em ascensão, o líder do experimento bolivariano pode estar com os dias contados. No entanto, basta um factoide e uma oportunidade para que a desgastada marca do socialismo do século 21 ameace ressurgir reluzente.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h04

Assim foi na semana passada, quando o comandante divulgou um novo retrato de Simon Bolívar em três dimensões, reconstituído por tomografias ósseas por uma equipe de cientistas nacionais. Em cerimônia teatral, que contou com a presença de alunos de um colégio de Caracas, Chávez apresentou a repaginada imagem do libertador latino-americano, morto em 1830, agora de uniforme em detalhes dourados, com feições severas e costeletas enormes.

Todos os países reverenciam seus fundadores e a América Latina está cheia de defuntos cobiçados. El Salvador, Honduras e Costa Rica, recentemente, disputaram o herói da independência Francisco Morazán, morto em 1842, e já discutem um rodízio de seus restos mortais.

Equador resolveu a querela sobre o legado de seu libertador, José Eloy Alfaro, dividindo suas cinzas entre um túmulo familiar e um memorial nacional. No Uruguai, conservadores ruidosos impediram um projeto parlamentar para transferir os restos mortais do herói independentista, o general José Artigas, de seu jazigo militar para um mausoléu civil.

Quando o então presidente argentino Nestor Kirchner criou um novo mausoléu para o eterno ícone Juan Domingo Perón, os peronistas rivais transformaram o cortejo em motim. Agora, sua mulher e sucessora, Cristina Kirchner, lança a nova nota de 100 pesos, que leva o semblante da ex-primeira dama Eva Perón.

No entanto, a fissura de Chávez por Bolívar vai além do tributo histórico. Andrés Oppenheimer, colunista do Miami Herald, avalia a obsessão latina pelos falecidos heróis como uma atração fatal pelo passado em uma região que prefere olhar para trás em vez de abraçar o futuro.

O argentino Tomás Eloy Martínez vai além e destaca a queda latino-americana pela melancolia de tempos perdidos, exemplificada na beatificação da Santa Evita, martirizada pelo câncer.

Pode ser. Para Chávez, porém, a história é uma arma prática. Seu novo retrato de Bolívar é mais uma peça do conhecido enredo chavista que lista o Libertador, ao mesmo tempo, como ícone e marca registrada da república, rebatizada da República Bolivariana da Venezuela. Na mão de Chávez, o herói oitocentista está a serviço do marketing político do século 21.

Mais que inspirar, o novo retrato de Bolívar foi encomendado para fortalecer uma tese política, a de que o herói não sucumbiu à tuberculose, como contam os livros, mas tombou envenenado por traidores colombianos (sempre eles). Sua cruzada para provar o complô dos vizinhos (avatares históricos para o imperialismo gringo atual) começou há dois anos de forma macabra e cômica, quando Chávez mandou exumar o cadáver do seu herói para exames forenses.

Mais do que saudosismo, a necrofilia ideológica é a arte de nutrir-se de cadáveres ilustres para engordar um projeto político. Escravocrata e latifundiário (Karl Marx o definiu como algoz dos trabalhadores), afeito ao iluminismo, devoto e, ao mesmo tempo, crítico da democracia ocidental, Simon Bolívar foi como todos os heróis históricos um líder complexo e contraditório o suficiente para servir a qualquer figurino, seja a farda do nacionalismo militar, seja a boina vermelha bolivariana.

Para Chávez, basta pinçar da obra do libertador meia dúzia de tiradas anti-imperialistas - e há muitas - para lustrar sua excêntrica visão do mundo. E as outras atitudes que não se encaixam no manequim? O que dizer de sua busca insistente pela chancela dos líderes europeus e americanos para seu pleito contra a Espanha? Ou de seus elogios efusivos à figura de George Washington, o primeiro filho do Novo Mundo?

A serventia de um herói é justamente prestar-se ao papel de autorizar seus discípulos a realçar alguns feitos e arquivar inconveniências. Entre elas, como lembrou recentemente o blogueiro venezuelano Francisco Toro: "Fuja de um país onde um único homem detém todo o poder, pois é um país de escravos".


*MAC MARGOLIS - É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE http://www.brazilinfocus/.

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