Café amargo para a China

TV estatal 'denuncia' Starbucks por café caro; população questiona falta de outras apurações

Rachel Lu*, O Estado de S.Paulo - Foreign Policy

24 de outubro de 2013 | 02h11

Há coisas piores no mundo do que um café com leite caro demais. Essa é a mensagem que milhares de usuários chineses da internet estão enviando à Televisão Central da China (CCTV), uma gigante de mídia estatal que exibiu, no dia 20, um vídeo acusando a Starbucks, com base em Seattle, de cobrar preços abusivos de consumidores chineses.

A rede pública de TV relatou que um café com leite grande custa US$ 4,43 numa loja da rede em Pequim, US$ 3,98 em Londres, US$ 3,26 em Chicago e US$ 2,40 em Mumbai. A emissora chamou grandiosamente o vídeo de sete minutos de "uma investigação de correspondentes da CCTV em todo o globo", embora acessar o preço de uma bebida da Starbucks não exija investigação maior do que uma rápida olhadela no menu. O vídeo exibiu alguns consumidores da Starbucks em Pequim reclamando do preço. "Como vou conseguir viver se bebo uma xícara por dia?", disse uma jovem.

O vídeo da CCTV insinua que companhias estrangeiras como a Starbucks estão depenando os consumidores chineses de seus yuans, cobrando mais na China do que cobram em outros lugares. No entanto, o povo chinês já sabe que a Starbucks é cara - e agora está se perguntando por que a TV estatal fez do café com leite um foco investigativo em vez das questões que interessam aos cidadãos comuns.

Pela contagem oficial da CCTV no Sina Weibo, o Twitter da China, a postagem contra práticas alegadamente abusivas da Starbucks teve mais de 63 mil retuítes e mais de 28 mil comentários, a maioria acusando a cobertura de injusta e desnecessária.

"Se você compra os produtos, isso significa que tem capacidade, disposição de pagar o preço e acha o preço do café da Starbucks correto", escreveu um usuário do Weibo da opulenta cidade de Qingdao. "Ninguém o forçou a comprar. Um sujeito pobre como eu se contentaria com uma xícara da Nestlé que custa US$ 0,30."

O que realmente irritou os observadores é que a CCTV subestimou grosseiramente a capacidade do povo chinês de distinguir uma injustiça real da variedade fabricada. Os usuários reclamaram que a CCTV estaria prestando um maior serviço aos chineses se tratasse de questões que afetam suas vidas diárias: o alto custo dos bens de primeira necessidade, como habitação, saúde, gasolina e telecomunicações.

Para Li Jinping, um usuário da Weibo que diz ser professor assistente na Universidade Popular de Segurança Pública da China, uma academia de polícia chinesa de elite, o episódio da CCTV se encaixa num hábito mais amplo da rede pública, que dirige sua ira contra empresas estrangeiras - como KFC, McDonald's e Apple - e desconsidera problemas mais importantes. "Por que a CCTV não questiona se é razoável retardar a idade média de aposentadoria das pessoas? Por que ela não reporta sobre se é ilegal obrigar a demolição de casas por toda parte e tomar a terra dos desalojados?", escreveu.

Isso não significa que a Starbucks deva desconsiderar as críticas. Em março de 2013, uma reportagem da rede chinesa afirmou que a Apple havia discriminado consumidores chineses. Essa reportagem também provocou uma forte reação contra a CCTV na mídia social. Mesmo assim, duas semanas depois, a Apple emitiu um pedido público de desculpas. Por enquanto, a Starbucks não se desculpou, argumentando apenas que "cada mercado da Starbucks é único e tem custos operacionais diferentes, por isso seria impreciso tirar conclusões sobre um lugar com base nos preços de outro".

Não é a primeira controvérsia que a Starbucks enfrenta na China. Em 2007, o âncora da nacionalista CCTV, Rui Chenggang, espinafrou o antigo posto avançado da Starbucks na Cidade Proibida de Pequim, a moradia ancestral dos imperadores chineses. Rui alegou que a marca era "de classe inferior" e sua presença ali era "obscena", representando uma afronta à civilização chinesa. Em 2012, a abertura de uma Starbucks perto do histórico templo budista de Lingyin, em Hanghzou, provocou nova rodada de discussões ferozes sobre "invasão estrangeira" e "comércio" de estimados símbolos culturais chineses.

Esses ataques tiveram repercussões desiguais. A Cidade Proibida expulsou a Starbucks em 2007 sob pressão de nacionalistas e a companhia disse que estava "respeitosamente decidida" a encerrar seu acordo de arrendamento. E, apesar de a Starbucks ter enfatizado seu profundo respeito pela cultura chinesa, numa declaração de setembro de 2012, a loja de Lingyin continua aberta, um testemunho da rápida expansão e crescente aceitação da Starbucks na China. Segundo seu site, a Starbucks tem mais de mil lojas em mais de 60 cidades na China - bem mais do que as 700 lojas que tinha em 2012 - e prevê que o país seja seu segundo mercado depois dos EUA em 2014.

Apesar da presença crescente da Starbucks na China, seus preços não entram no cálculo diário da maioria dos chineses. Dong Laifeng, que trabalhou em relações entre mídia e público, recorreu ao Weibo para esboçar um quadro da vida cotidiana no país: "Eu não preciso beber café, mas preciso viver em um apartamento. Por que a CCTV não se dedica a criticar governos locais por venderem terra a preços abusivos?", questionou. 

*Rachel Lu é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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