Loveday Morris / WashingtonPost
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Café vegano em Jerusalém se rebela contra ultraortodoxos

População ultrarreligiosa cresce em tamanho e influência e afeta vida cotidiana dos israelenses

Loveday Morris e Miriam Berger / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2019 | 05h00

O Bastet, um café vegano e aberto aos LGBTs, com suas mesas espalhadas na calçada no centro de Jerusalém, é um oásis secular para os moradores que gostam de tomar uma bebida para relaxar numa cidade que praticamente fica imobilizada no sábado em razão do shabat. Mas, a cada semana, um grupo de ultraortodoxos desfila em frente ao café, mostrando seu desagrado com o desacato ao dia de descanso.

Num sábado recente, as funcionárias do café decidiram reagir, levantando suas camisetas e mostrando o sutiã, numa tentativa de afastar os manifestantes. O confronto é o reflexo de uma tensão observada em Israel hoje a respeito da real natureza do Estado, fundado por sionistas seculares, mas com uma população ultrarreligiosa que cresce em tamanho e influência.

Essa tensão ficou bem à mostra no mês passado, ao frustrar os esforços do premiê Binyamin Netanyahu para formar um novo governo e levar uma nação atônita às urnas pela segunda vez este ano. Netanyahu necessitava de duas facções concorrentes, secular e religiosa, para formar uma maioria no Parlamento e elas ficaram num impasse diante da legislação que propõe a obrigação do serviço militar pelos ultraortodoxos, como os demais judeus.

Os partidos ultrarreligiosos se opõem à medida. No entanto, Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa, ultranacionalista, resiste à influência dos ultraortodoxos. As pessoas que o cercam dizem que a questão do alistamento militar se insere na sua preocupação mais abrangente com uma comunidade minoritária que recebe benefícios sociais e isenções fiscais do Estado e contribui menos do que os outros judeus que pagam impostos. Influências externas, como filmes, internet  ou conviver com israelenses seculares são desencorajadas, quando não proibidas.

Os ultraortodoxos formam uma comunidade religiosa que abrange uma série de seitas que decidiram se segregar da sociedade israelense para levar uma vida em que a observância religiosa é primordial. Na fragmentada democracia parlamentar israelense, os partidos políticos que representam os ultraortodoxos se tornaram poderosos e influentes nos últimos anos.

Para israelenses como Klil Lifshitz, jovem lésbica de 28 anos que abriu o café Bastet, há dois anos e meio, o espaço que vem diminuindo para o secularismo é preocupante.

“Eles têm cada vez mais poder”, disse ela, referindo-se aos ultraortodoxos. “Enquanto continuarem a ter poder na formação de coalizões e governos, basicamente vão ter o que desejam.”

Foi durante uma costumeira manifestação no mês passado, convocada pelos ultraortodoxos para protestar contra o que qualificam como um desacato ao sabath, quando o país hospedou o concurso Eurovisão da canção, que as garçonetes do café decidiram assumir uma posição. E disseram que seu objetivo foi proteger suas mesas e mostrar seu ponto de vista ideológico.

Desde então, eles fizeram uma pausa nos seus protestos. “É uma vitória”, disse Mira Ibrahim, uma das garçonetes que decidiu tirar a camiseta, embora a sensação de triunfo tenha sido ofuscada pela reação dura da polícia contra os manifestantes que deixou o pessoal do café incomodado. Mas, embora a equipe do café Bastet tenha vencido uma pequena luta, a batalha maior só deve se intensificar. Os ultraortodoxos, conhecidos como haredim, formam 12% da população, mas constituem o segmento de israelenses que mais cresce com as mulheres dando à luz uma média de 6,9 filhos.

Nos primeiros dias do Estado de Israel, muitos ultraortodoxos se opunham ao movimento sionista secular que criou a nação, temendo que ele eliminasse sua forma de judaísmo. Hoje seu poder é cada vez maior no Parlamento de 120 membros e recentemente conquistaram 16 assentos, para promover seus interesses.

E não são apenas eles que insistem que Israel seja governado segundo as leis religiosas. Na segunda-feira Netanyahu rejeitou apelos do seu aliado político Bezalel Smotrich, um judeu religioso – não ultraortodoxo – para o sistema judiciário de Israel ser fundamentado na lei judaica.

“Israel não será um Estado  ‘halacha’” “, disse Netanyahu no Twitter, usando o termo para a lei judaica baseada no Talmude.

Um Estado religioso é o  desejo de  Avraham Menkes, rabino ultraortodoxo, que considera o recrutamento militar uma ameaça à sua comunidade. Segundo ele, o serviço nacional tem por fim tirar os imigrantes judeus de um cadinho de culturas de todo o mundo e dar a elas uma identidade uniforme.

Menkes dirige o Comitê para salvar o Mundo do Torá, grupo que realiza protestos contra as iniciativas de alistamento dos membros da sua comunidade. Por seu ativismo foi preso dez vezes. Na parede do seu apartamento em Jerusalém está a foto de um protesto realizado há dois anos. Um grupo de manifestantes se reúne nas ruas e fica sentado de costas sendo molhados pelos canhões d’água da polícia.

“Estou nessa foto”, disse ele, explicando que se ocultava sob o casaco preto, parte do traje tradicional ultraortodoxo. A questão do alistamento militar veio à tona em 2017 quando a Suprema Corte decidiu que isentar os radicais religiosos do serviço militar era ilegal e pediu ao Parlamento para elaborar uma nova lei, mais equitativa.  (Em Israel os homens devem prestar o serviço militar por quase três anos, e as mulheres dois anos).

As isenções para a população haredim existem desde o nascimento de Israel. Em 1949 o fundador do país, David Ben-Gurion, concedeu a isenção para 400 estudantes religiosos porque muitos estudiosos judeus morreram no Holocausto. Desde então o seu número disparou. A questão do alistamento militar tem alimentado a ira de muita gente da população em geral. O emprego entre os homens ultraortodoxos é de apenas 50%, pois muitos preferem os estudos religiosos. O governo os apoia com isenções de impostos e pagamentos de polpudos benefícios.

“Os israelenses que servem o Exército e trabalham muito para sobreviver acham que eles são parasitas e vivem do dinheiro que recebem do governo que usa os impostos que pagamos para isso”, disse Carlo Strenger, professor de filosofia e psicologia da Universidade de Tel-Aviv, que tem alertado que Israel está se destruindo pelo medo e ressentimento. Para ele, uma estrutura federativa, que ofereça aos ultraortodoxos e cidadãos árabes em Israel uma maneira de viver sem se sentirem em perigo seria a resposta.

Liberman trata como prioridade a aprovação de uma nova lei que estabelece cotas de alistamento para os ultraortodoxos e multa as escolas religiosas que não cumprirem a ordem. Aryeh Vishnevetsky, porta-voz do partido Yisrael Beitenu, de Lieberman, afirmou que o tratamento igual é uma questão de princípio. E é por isso que o partido também exigiu que os tribunais formados por rabinos ultraortodoxos  retirem seu pedido para que alguns imigrantes russos realizem testes de DNA para provar sua herança judaica.

Essas preocupações são parte da resistência às demandas dos ultraortodoxos que prejudicam a vida secular, como a exigência de fechamento dos supermercados aos sábados, afirmam os partidários de Lieberman.

Mas eles dizem que não querem mudar a maneira como os religiosos vivem suas vidas. “Não queremos transformar ninguém numa pessoa secular”, disse Vishnevetsky, acrescentando que é mais fácil para os haredim encontrarem trabalho depois de prestarem o serviço militar. Mas, na opinião de Menkes, todos os jovens haredim que são alistados perdem sua religião. Recentemente foi seu sobrinho que tirou seu quipá depois de prestar o serviço militar. “Ele foi para o Exército como um haredi e agora diz que descobriu o mundo”, disse ele.

Na loja da esquina a alguns metros da rua no bairro de Shmuel Hanavi, em Jerusalém, Haim, de 26 anos, relatou como prestou o serviço militar contra a vontade da família. Embora ainda use o quipá preto e o traje branco e preto dos haredim,  disse que agora é ateu, mas já se considerava secular mesmo antes de ir para o Exército. Segundo ele, para muitos ultraortodoxos que buscam uma saída, o Exército oferece uma.

“É uma porta de saída da comunidade. Os rabinos aqui têm medo de que as pessoas se relacionem com gente de fora. O Exército é um desses lugares, em que elas se misturam com indivíduos seculares.”

Há um ano e meio ele concluiu o serviço militar e mudou de casa por “razões econômicas”. Encontrar um emprego é difícil para os que deixam a comunidade porque sua formação se concentra em estudos religiosos. Sua família permitiu que ele retornasse para casa sob algumas condições, incluindo a maneira de se vestir.

Haim disse que muitas pessoas no seu bairro estão furiosas com Liberman. Elas o acusam de provocar uma disputa religiosa em busca de poder ou de uma vendeta pessoal contra Netanyahu. Mas depois da posição de Liberman com relação ao alistamento, ele disse que pensa em votar nele.

Embora muitos fora de Israel considerem o conflito com os palestinos a luta decisiva de Israel, Haim disse que o confronto entre esses dois mundos – o religioso e o secular – é o mais catastrófico e certamente vai se intensificar no futuro, à medida que a população ultraortodoxa cresce.

Ele prevê que Israel chegará ao momento mais crítico quando o equilíbrio entre as comunidades judaicas não mais se sustentarem e os judeus seculares começarem a deixar Israel porque se tornou um país muito repressivo. “Num determinado ponto o país vai se romper”, alertou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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