AP Photo/Rodrigo Abd, File
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Cai chefe do Exército da Argentina

Acusado de violar direitos humanos, general César Milani dividia cúpula kirchnerista

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE , O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2015 | 02h00

BUENOS AIRES- O general César Milani, um dos personagens mais controvertidos do governo de Cristina Kirchner, renunciou ontem ao cargo de chefe do Exército argentino. Proveniente do setor de inteligência das Forças Armadas, ele é acusado de violar direitos humanos durante a ditadura (1976-1983). Ele ocupava a função desde 2013, em um governo que cativa eleitores por ter avançado no julgamento de militares por crimes no período.

Ele argumentou que sua renúncia está ligada a "razões estritamente pessoais" e foi substituído pelo general Ricardo Cundom. Aos 60 anos, Milani é acusado do desaparecimento do soldado Alberto Ledo em 1976, na província nordestina de Tucuman. "Esperamos que a saída dele do poder ajude a apressar o julgamento. Claramente, houve lentidão pelo cargo que ele ocupava", disse ao Estado a irmã do soldado, Graciela Ledo. Milani também é acusado de torturar dois membros de uma família na província de La Rioja.

A decisão de Cristina de nomeá-lo comandante do Exército foi criticada por grupos de defesa dos direitos humanos, mas as entidades kirchneristas da área o apoiaram. O caso mais paradoxal é o da líder das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, que surpreendeu parte de seu próprio movimento ao apoiar Milani, a quem foi apresentada por Néstor Kirchner.

Graciela Fernández Meijide, opositora que teve um filho sequestrado pelos militares, interpretou a saída de Milani como uma forma de o governo se livrar de um quadro inconveniente, a quatro meses da eleição presidencial. "Nem o ministro da Defesa o queria", afirmou ao canal TN, do Grupo Clarín.

O ex-ministro de Defesa Horacio Jaunarena, que ocupou o cargo três vezes, afirmou que é raro um militar do setor de inteligência chefiar o Exército. "Ele estava a serviço de uma facção do governo fazendo espionagem contra adversários políticos, o que é inadmissível", afirmou.

A deputada opositora Elisa Carrió ironicamente pediu em fevereiro a Milani que não a matasse. Ela o acusou de participação na morte do promotor Alberto Nisman, encontrado com uma bala na cabeça em janeiro depois de denunciar Cristina por encobrir iranianos acusados de atacar uma entidade judaica em 1994. Segundo a deputada, o militar, que sabia detalhes da investigação feita por Nisman com espiões, teria desmobilizado os guarda-costas dele no dia em que foi encontrado morto. Ela não apresentou provas.

Os organizadores da visita do papa Francisco ao Paraguai, de 10 a 12 de julho, esperam que um milhão de argentinos cruzem a fronteira para vê-lo. O pontífice começará sua viagem à América do Sul pelo Equador, dia 5, e vai dia 8 para a Bolívia. A Argentina ficou fora do roteiro porque Francisco já disse que não quer influir na eleição de outubro. Ele visitará seu país em 2016, além de Uruguai e Chile.

Descrito em biografias como peronista conservador, Francisco recebeu quatro vezes a presidente Cristina Kirchner no Vaticano - a última no dia 7, a duas semanas da definição das candidaturas na Argentina. Estudiosos da vida do papa, como Sergio Rubin, argumentam que seria difícil ele se recusar a receber a presidente. Em março, Francisco reclamou que se sentia usado pela política. Críticos do papa, porém, dizem que políticos de pouca expressão - kirchneristas ou opositores - voltaram de visitas ao Vaticano com fotos ao lado de Francisco e as transformaram em outdoors de campanha. / R.C.

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