Cai líder do Parlamento britânico

Michael Martin, presidente da Câmara dos Comuns, renuncia após ocultar detalhes do escândalo de verbas públicas

AP, Reuters e NYT, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

O presidente da Câmara dos Comuns da Grã-Bretanha, o trabalhista Michael Martin, cedeu à pressão que vinha sofrendo por causa do escândalo dos gastos de parlamentares e anunciou ontem sua renúncia. Martin é o primeiro presidente do Parlamento forçado a deixar o cargo em mais de três séculos.Entenda o escândalo de gastos e veja despesas de parlamentares"Para que a unidade seja mantida, decidi que abandonarei o posto de presidente em 21 de junho", afirmou Martin. "Isso permitirá que a Casa inicie a escolha de um novo líder. Isso é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto." Após sua declaração, Martin deu continuidade à agenda do dia, enquanto alguns legisladores deixavam o local, surpresos com a rapidez com que foi encerrado um momento histórico da Câmara. O sucessor de Martin deve ser escolhido pelos 646 deputados britânicos um dia após ele deixar o cargo.Martin é a mais alta figura pública a ser afetada pelas revelações feitas pelo jornal The Daily Telegraph, que publicou detalhes sobre as despesas de parlamentares desde 2004. Entre as denúncias estão as de que políticos usaram o auxílio-moradia para reformar a própria casa e pagar prestações de imóveis.Apesar de não se ter beneficiado das verbas, Martin foi criticado por ter criado um ambiente que permitiu o exagero ao tentar bloquear diversas vezes a publicação de detalhes sobre as despesas. O trabalhista foi eleito para o Parlamento em 1979. Martin, um ex-líder metalúrgico de 63 anos, tem suas origens em uma região humilde de Glasgow, na Escócia, onde morava com o pai alcoólatra, e sempre teve orgulho de sua trajetória política - especialmente ao chegar à presidência da Câmara dos Comuns, em 2000.Na segunda-feira, Martin ainda vetou um debate sobre seu futuro no Parlamento, enquanto deputados exigiam sua renúncia e interrompiam suas declarações.A divulgação dos gastos enfureceu a população britânica e ameaça afetar o resultado das eleições locais do dia 4. As denúncias prejudicaram todos os partidos, mas foi um grande golpe principalmente para o Partido Trabalhista, no poder desde 1997. É provável que a decisão de Martin alimente a reivindicação da oposição conservadora de antecipação das eleições gerais, inicialmente previstas para junho de 2010.O líder conservador David Cameron voltou ontem a pedir que o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, convoque eleições antecipadas. "Isso não vai ser fácil, mas precisamos recuperar a confiança no sistema político", afirmou Cameron.REFORMULAÇÃOBrown disse que antecipar as eleições não é a solução para o problema. Segundo o premiê, é necessária uma reformulação total do modo com o qual o Parlamento é dirigido."O Parlamento não pode funcionar como um clube de cavalheiros no qual seus integrantes inventam as regras e as controlam", disse Brown durante entrevista coletiva. O premiê insistiu em um novo sistema de reembolso para os deputados e prometeu não deixar o escândalo ofuscar a crise econômica que toma conta da Grã-Bretanha - a pior recessão registrada no país desde a 2ª Guerra.

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