Cairo usa símbolos para driblar analfabetismo

Com grande parte do eleitorado incapaz de ler, ícones com objetos comuns, como escada ou balança, representam candidatos na cédula de votação

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2012 | 03h09

Para cerca de um terço dos egípcios, a escolha de hoje nas urnas será entre passarinho, cavalo, escada, árvore e outros símbolos. Fazer eleições em um país sem tradição democrática é difícil. Com uma taxa de analfabetismo de mais de 35% e 40% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, pior ainda.

Para ajudar os eleitores que não sabem ler, a solução encontrada pela Comissão Eleitoral foi identificar os 13 candidatos com desenhos de coisas comuns. Todos os cartazes de campanha e os programas de TV põem em evidência o símbolo do político, ajudando a gravar o desenho na memória da população. Essa estratégia já foi usada na eleição parlamentar do fim do ano passado e, segundo a Justiça do Cairo, deu certo.

Cada candidato escolhe seu desenho e o submete à Comissão Eleitoral, que deve aprová-lo. Amr Moussa, o ex-chanceler da ditadura, é um sol estilizado. Ahmed Shafiq, último premiê da era Hosni Mubarak, uma escada. Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, uma balança antiga. Abdel Moneim Abou Fotouh, islâmico moderado, um cavalinho parado. Nas eleições para o Parlamento, quando centenas se candidataram, a criatividade foi mais longe e houve aspirador de pó, prego, camisa e cacho de uva.

Além de questões sociais e econômicas, há ainda dificuldades de ordem cultural. Uma delas é identificar na hora do voto as mulheres que usam o niqab, véu islâmico que só deixa os olhos de fora. A solução encontrada pela Comissão Eleitoral foi recrutar mais mulheres como mesárias. Elas levam as eleitoras de niqab para um canto da sala de votação, levantam o véu e atestam a identidade da eleitora.

Para Hossam Bahgat, da Egyptian Initiative for Personal Rights, o maior desafio das eleições não é o sistema de votação, mas a estrutura da Justiça Eleitoral. "A Comissão Eleitoral é soberana e suas decisões não podem ser contestadas numa instância superior", disse ao Estado. Essa prerrogativa se aplica também para o anúncio dos resultados finais. Bahgat, porém, afirma que não há indícios de que a eleição de hoje esteja ameaça por fraude em grande escala.

Três organizações não egípcias monitorarão a votação de hoje e amanhã, entre elas a ONG do ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. O próprio Carter desembarcou segunda-feira no Cairo e deve coordenar equipe de 22 observadores. A Comissão Eleitoral também autorizou 53 ONGs egípcias a monitorar a eleição.

No sábado, serão divulgados os resultados preliminares do primeiro turno. Os candidatos podem entrar com recursos e o comunicado final sobre os dois finalistas será divulgado na terça-feira. Se ninguém conseguir mais de 50% dos votos, em meados de junho ocorrerá o segundo turno.

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