Cairo volta a ser palco de protesto antigoverno

Manifestantes criticam presidente do Egito, que editou decretos ampliando seus poderes

CAIRO, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2012 | 02h03

O recuo do presidente do Egito, Mohamed Morsi, não impediu que milhares de manifestantes voltassem ontem à Praça Tahrir na pior crise política do governo da Irmandade Muçulmana. Opositores de Morsi protestaram pelo quinto dia seguido, aumentando a pressão pelo fim dos decretos que deram superpoderes a Morsi e, segundo os manifestantes, ameaçam instaurar uma nova ditadura no país.

Houve violência no confronto após a polícia disparar bombas de gás lacrimogêneo contra jovens que lançavam pedras. Um homem de 52 anos morreu ao inalar o gás. Manifestações contra Morsi também foram registradas em Alexandria, Suez, Minya e outras cidades do Delta do Nilo. Esta já é a pior crise enfrentada pela Irmandade Muçulmana, eleita em junho, e expôs a divisão entre islâmicos e seculares.

"O povo quer derrubar o regime", cantavam as cerca de 200 mil pessoas que estavam ontem na Praça Tahrir, epicentro da revolta que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, no ano passado.

Os manifestantes carregavam bandeiras do Egito e cartazes que diziam: "A Irmandade sequestrou o país". Eles eram compostos por grupos laicos, liberais e de esquerda e exigiam a revogação principalmente dos decretos que expandem os poderes presidenciais e dão imunidade a Morsi em relação ao Judiciário.

"Vamos ficar na Praça Tahrir até Morsi cancelar os decretos", disse o manifestante Ahmed Fahmy, de 34 anos. "Morsi é muito mais perigoso que Mubarak. Só pensa na Irmandade Muçulmana, que quer controlar tudo", afirmou Ihab Youssef, funcionário de um banco.

"A Irmandade Muçulmana monopolizou o poder em todas as instituições do Egito", reclamou Gamal Aburinad, manifestante que armou uma barraca na Praça Tahrir. "Ele (Morsi) quer se tornar um monarca absoluto", disse Mona Sadek, engenheira de 31 anos. Temendo confronto e violência, a Irmandade Muçulmana suspendeu um grande comício que havia convocado para ontem, mas líderes do grupo não descartaram a possibilidade de convocar novas manifestações.

Recuo. Na segunda-feira, o presidente reuniu-se com um grupo de juízes egípcios para dar garantias de que não pretende acumular poder. De acordo com Morsi, os decretos editados por ele teriam validade apenas até a aprovação de uma nova Constituição.

Após a reunião, seu porta-voz, Yasser Ali, informou que ele concordou que apenas decisões relacionadas a assuntos soberanos seriam protegidas contra questionamentos judiciais. "O presidente Morsi está muito otimista e acredita que os egípcios superarão esse desafio, assim como já superaram outros", declarou Ali.

Apesar da concessão de Morsi, continuam em vigor os termos do decreto que garantem imunidade judicial à Assembleia Constituinte e à Câmara Alta do Parlamento, que são dominadas por islâmicos e aliados do presidente.

Por isso, após a reunião, os juízes afirmaram que a crise não terminou. "O encontro fracassou", disse o magistrado Abdel Rahman Bahlul. "Não podemos dizer que isso seja o fim da crise entre o Judiciário e a presidência do Egito." Logo após o encontro, uma fonte do Judiciário afirmou que, ainda que a imunidade presidencial seja restrita aos poderes soberanos, "há preocupações pelo fato de o texto dos decretos permanecer inalterado".

Ontem, diante do prédio da ordem dos advogados, no centro do Cairo, milhares de magistrados protestaram novamente contra os superpoderes de Morsi. "Se o presidente quisesse resolver a crise, deveria editar uma emenda aos decretos", disse Ahmed Ragheb, um dos advogados que acusam o líder egípcio e a Irmandade Muçulmana de "jogar com as palavras".

Políticos e ativistas de direitos humanos ignoraram o recuo de Morsi, que foi considerado uma "tentativa de abafar a crise política sem realizar concessões concretas". A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch afirmou que os decretos dão mais poderes ao presidente do que os que tinha a junta militar que assumiu após a queda de Mubarak. / REUTERS, AFP e AP

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