Calderón fatura com ofensiva contra o narcotráfico e a corrupção policial

Presidente mexicano vê a popularidade dobrar ao eleger combate à criminalidade como prioridade de governo

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

Os soldados enviados pelo presidente mexicano Felipe Calderón para enfrentar os narcotraficantes na cidade de Veracruz, em maio, foram recebidos com um espetáculo mórbido. A cabeça decapitada de um homem - mais tarde identificado como um mecânico de 37 anos - foi deixada na porta do quartel que lhes serviria de base junto com duas granadas e uma mensagem: "Iremos continuar, mesmo com forças federais na área." O episódio dá a medida das dificuldades que o governo mexicano está enfrentando para levar adiante um dos mais ambiciosos projetos de combate aos cartéis da droga da história do país, num momento em que esses cartéis ameaçam transformar o México no que foi a Colômbia nos anos 80 e 90. Eleito há pouco mais de um ano com 35,89% dos votos - e uma diferença de apenas 0,58 ponto percentual em relação ao segundo candidato -, Calderón resolveu apostar todas as fichas de seu governo na luta contra o narcotráfico e como resultado viu seus índices de aprovação saltarem para 65%. A escolha foi feita após um cálculo simples. "A violência está no topo da lista de preocupações de todos os mexicanos - é uma das poucas questões que são unanimidade nacional", disse ao Estado, por telefone, o analista político Jorge Chabat, especialista em questões de segurança. Não é difícil de entender o motivo. As recentes ações dos narcotraficantes impressionam por sua crueldade e ousadia - e algumas vezes fazem os filmes de Quentin Tarantino (que retratam o submundo do crime organizado) parecerem matinê. Em setembro, o país ficou chocado depois que um grupo de 15 homens fortemente armados invadiu uma boate lotada na cidade de Uruapán e lançou sobre a pista de dança cinco cabeças. Decapitações, torturas e mutilações se tornaram freqüentes, bem como a prática de fixar mensagens nos corpos das vítimas com facas e furadores de gelo. "Para um presidente cuja vitória foi amplamente contestada por seus adversários - que denunciavam supostas fraudes eleitorais -, garantir o controle do Estado sobre todo o território e colocar um fim nessas demonstrações de força dos narcotraficantes também é uma maneira de se legitimar", diz o cientista político Erubiel Tirado, da Universidade Iberoamericana, na Cidade do México. A ofensiva de Calderón começou com o envio de 30 mil homens, entre soldados do Exército e policiais federais, para nove Estados nos quais a ação dos cartéis é intensa, como Michoacán, Baixa Califórnia, e o chamado Triângulo Dourado, que inclui Sinaloa, Durango e Chihuahua. O presidente também aumentou em 45% os salários dos militares e, em junho, afastou 282 oficiais da polícia federal (incluindo os diretores em cada um dos 32 Estados mexicanos). O objetivo era desmantelar as redes de cooperação com o crime organizado, que nas localidades mais críticas envolvem 75% da polícia. "A corrupção policial foi a justificativa utilizada para incluir o Exército nas ações, embora isso tenha causado alguma polêmica porque os soldados são treinados para matar inimigos, e não para lidar com populações civis", diz Tirado. Agora, para assumir altos cargos, os policiais têm de se submeter a testes com detectores de mentiras, exames para verificar a presença de entorpecentes no sangue e devassas em suas finanças pessoais. Além disso, só nos últimos seis meses cerca de 60 traficantes foram extraditados para os EUA, mais do que em qualquer ano do governo anterior. Entre eles, estava o poderoso chefão do Cartel do Golfo, Osiel Cárdenas, que foi preso há quatro anos, mas continuava gerenciando seus negócios ilícitos de uma prisão de segurança máxima. Segundo analistas, ainda é cedo para saber se essas iniciativas serão eficientes. "Nos últimos três meses houve uma redução expressiva da violência, mas é difícil estabelecer as causas exatas desse avanço", disse Ernesto López Portillo, presidente do Instituto Segurança e Democracia. "É possível que ele já seja resultado da ação militar de Calderón, mas também há rumores de que os grupos de narcotraficantes rivais acordaram uma trégua." Por outro lado, não há dúvidas sobre os efeitos da guerra contra o tráfico nos índices de popularidade do presidente.De acordo com José Maria Ramos, especialista em segurança pública do Colégio da Fronteira Norte, em Tijuana, o modelo de inspiração de Calderón foi o presidente colombiano, Álvaro Uribe. Ao adotar políticas firmes contra o crime e retomar o controle de territórios antes dominados por guerrilheiros e paramilitares, Uribe conseguiu se reeleger e viu sua popularidade se estabilizar na casa dos 70%. "O sucesso da estratégia de Calderón vai depender de que ela não fique restrita a uma ofensiva militar e ao fortalecimento dos serviços de inteligência", afirma Ramos. "Como na Colômbia, é preciso que seja feito um trabalho de prevenção da violência, com projetos de recuperação urbana, programas sociais para melhorar as perspectivas dos jovens em regiões críticas e incentivos à participação da comunidade e sua interação com as forças de segurança." As semelhanças com o país sul-americano param por aí. "A possibilidade de um plano para o México semelhante ao ?Plano Colômbia? é remota porque a presença militar dos EUA no país vizinho é um tabu", disse ao Estado o americano John Bailey, especialista em México da Universidade de Georgetown, em Washington. Até por uma questão histórica, relacionada ao conflito entre os dois países que, na metade do século XIX, terminou com os americanos anexando quase 50% do território original do país vizinho, falar em ?Plano México? é despertar a ira de amplos setores da população e do Exército mexicanos.

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