Calendário, máquina estatal e mobilização foram decisivos

Análise: Alfredo Ramos Jiménez

É CIENTISTA POLÍTICO DA UNIVERSIDADE SIMON BOLÍVAR, EM CARACAS, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h02

Indiscutivelmente, quem ganhou as eleições de domingo foi o chavismo. A derrota da oposição, limitada agora a três Estados, em meio a um mar vermelho, deve-se principalmente ao desencanto após a perda da eleição presidencial em outubro. Mas há uma conjunção de fatores.

O Conselho Nacional Eleitoral venezuelano é formalmente um ministério do governo e convocou as eleições para um período difícil, às vésperas do Natal. Com as férias escolares estendidas até janeiro, cidadãos de classe média, onde a oposição tem a maioria de seus votos, preferiram viajar.

O chavismo contou também com a máquina do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O grupo político de Chávez trabalha com recursos do governo, que servem por exemplo para distribuir aos eleitores eletrodomésticos chineses (a Venezuela mantém uma parceria para troca de eletrônicos por petróleo). Além de dinheiro, o PSUV tem uma capacidade gigante de convocar os eleitores - o voto é opcional na Venezuela.

No balanço de vencedores e derrotados, chama atenção o espaço que ganharam os militares no cenário político. De todos os governadores, agora os civis não chegam 30%. Um dos maiores ganhadores da eleição foi o militar Francisco Javier Arias Cárdenas, que derrotou um nome forte da oposição, Pablo Pérez, no Estado de Zulia. Cárdenas apoiou Chávez nas presidenciais de 1998 e, em 2000, passou à oposição, tornando-se um dos maiores críticos do presidente. Em 2006, se reconciliou como comandante.

Do ponto de vista estratégico, o chavismo deveria, se perceber que Chávez não poderá assumir o poder dia 10 de janeiro, chamar eleições o mais rápido possível. Deveria aproveitar o momento. Ainda assim, é muito difícil que o faça. Teria de partir do próprio presidente essa ordem, ou poderia parecer uma conspiração. Mas está claro que o efeito das regionais vai passar, assim como esse sentimento de compaixão que mobilizou o chavismo.

Se uma nova eleição presidencial ocorrer em três ou seis meses, essa alta abstenção não se repetirá. Historicamente, a participação é baixa nas regionais (ontem ficou em 54%, quando nas presidenciais de outubro chegou a 80%). Henrique Capriles, vitorioso em Miranda, sai com impulso para representar o antichavismo - dessa eleição regional dependia a sobrevivência da oposição. Uma disputa entre ele e Nicolás Maduro deve ser apertada. Em novas presidenciais, a oposição terá muito mais motivação. E não podemos esquecer que uma parte dos eleitores não seguirá um chavismo sem Chávez.

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