AP Photo/Alan Diaz
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Calibre de armas à venda é debatido após massacre em Las Vegas

Parte da população condena acesso a fuzis semiautomáticos, mas considera inútil qualquer tentativa de restringir compras

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Las Vegas , O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 05h00

Fuzis semiautomáticos chegaram a ser proibidos nos EUA de 1994 a 2004, mas hoje são vendidos quase sem restrições. Os críticos da situação atual ressaltam que o comércio de armas é menos regulado que o de bebidas, cigarros e carros. Motoristas são obrigados a passar por uma habilitação e renová-la periodicamente, o que não ocorre com os donos de armas.

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Mickey Deweesa é um representante típico da parcela de americanos que se opõe a regras mais rigorosas sobre a compra e porte de armas. “As drogas são ilegais e isso não impede que as pessoas as utilizem”, afirmou ontem, enquanto esperava para doar sangue às vítimas do massacre de domingo em Las Vegas. A poucas cadeiras de distância, Bianca Balderas defendia a regulação do setor e a proibição de venda de rifles semiautomáticos, os preferidos pelos autores de ataques do tipo nos EUA.

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Defensor do acesso às armas, o presidente Donald Trump falou ontem pela primeira vez sobre um dos temas que mais dividem a sociedade americana e voltou à tona depois que o aposentado Stephen Paddock matou 59 pessoas e feriu 527 no domingo. “Nós vamos falar de leis sobre armas com o tempo”, declarou o presidente em Washington. “Nós vamos falar sobre isso mais tarde.”

Para os que defendem regras mais rigorosas, o momento para essa discussão é agora. “Sempre acreditei que o porte de armas deveria ser estritamente regulado. Seus proprietários deveriam ter que renovar registros de maneira periódica, de preferência todos os anos”, afirmou Balderas, que trabalha em um dos cassinos de Las Vegas. Em sua opinião, a legislação deveria estabelecer um número máximo de armas que cada cidadão pode ter e proibir a comercialização de certos tipos, cujo uso deveria ser restrito às Forças Armadas.

Deweesa vive no Kentucky, um dos Estados do Meio-Oeste americano no qual é a oposição a qualquer restrição é forte. “Eu sou dono de várias armas, mas nunca faria isso”, disse, referindo-se ao ataque. “Eu não tenho rifles semiautomáticos e até concordaria em proibi-los, mas se alguém quisesse, conseguiria comprá-los de maneira ilegal”, justificou. “A heroína é ilegal, mas as pessoas se viciam.” 

Apesar das declarações de Trump, representantes do Partido Republicano no Congresso deixaram claro ontem que não pretendem analisar a regulamentação do setor. “Eu acho que é prematuro discutir soluções legislativas, se é que há alguma”, declarou o líder da legenda no Senado, Mitch McConnell.

A Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em inglês) é um dos mais poderosos lobbies dos EUA e uma das principais fontes de financiamento de campanhas republicanas. A entidade conseguiu bloquear todas as tentativas recentes de regular o setor, entre as quais estavam propostas que tornavam mais rigorosas as checagens de antecedentes e de sanidade mental ou que limitavam o número de balas em cada cartucho de munição de rifles semiautomáticos. A cada ataque de tiros, os republicanos acusam os opositores democratas de “politizarem” a tragédia com a sugestão de restrições ao setor.

 

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