Andrew Cullen/The New York Times
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Califórnia retarda horário de início das aulas para melhorar rendimento de alunos 

A lei, que surgiu em meio a preocupações crescentes com os efeitos da privação do sono nos jovens, visa melhorar as taxas de frequência e reduzir a indolência

Christine Hauser e Isabella Kwai / The New York Times , O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 10h00

LOS ANGELES - Os estudantes da Califórnia podem esperar por um sono extra pela manhã, assim que uma nova lei entrar em vigor. A lei, assinada no domingo pelo governador Gavin Newsom, adia os horários de início na maioria das escolas públicas de ensino fundamental e médio, tornando o Estado o primeiro a determinar tal mudança.

As aulas para escolas de ensino fundamental, incluindo aquelas que funcionam como escolas públicas independentes, começarão não antes das 8h30 segundo lei, e as aulas para ensino médio começarão não antes das 8h.

A lei, que surgiu em meio a preocupações crescentes com os efeitos da privação do sono nos jovens, visa melhorar as taxas de frequência e reduzir a indolência, disse Anthony Portantino, senador estadual democrata que redigiu o projeto.

“Todo mundo está procurando uma solução mágica em educação, uma que abranja todos os dados demográficos, todas as etnias e realmente tenha um aumento positivo e mensurável nas pontuações dos testes, nas taxas de frequência e de graduação sem custar dinheiro”, disse ele em entrevista por telefone. “E é isso.”

Uma defensora da lei é Libby Vastano, de 16 anos, de Los Altos, Califórnia, que inicia as aulas por volta das 8 da manhã e disse que a mudança deixaria os alunos mais felizes e menos estressados.

“Não conheço muitas crianças que dormem o suficiente na minha escola”, disse ela. “Se você conhece alguém que consiga nove horas, é como 'Uau'.” Muitas vezes, ela espera que suas primeiras aulas pela manhã não sejam as mais difíceis, porque ela ainda se sente grogue.

Especialistas em sono também saudaram a mudança. Sumit Bhargava, professor clínico associado de pediatria na Universidade de Stanford e especialista em medicina pediátrica do sono na Saúde da Criança de Stanford, chamou a lei de um “triunfo”, observando que o cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento e a privação crônica do sono aumenta o risco de doenças mais tarde na vida.

Efeitos da falta de sono surgem mais tarde

Embora possa não parecer muito, disse ele, “os efeitos dessa hora a mais de sono é algo que eles sentirão quando adultos aos 40 anos”, acrescentando que os estudantes se sentiriam menos ansiosos e menos deprimidos e teriam um desempenho acadêmico melhor. “Quando você dá a eles o presente de aumentar o tempo de sono, é o maior retorno que você pode pensar”, disse ele.

Os críticos do projeto apontaram para os desafios adicionais de deslocamento que os alunos poderiam enfrentar. Eles também argumentaram contra uma abordagem do tipo “tamanho único”, citando o potencial de perturbação nos horários de saída e os efeitos desproporcionais que a lei teria sobre os pais que trabalham.

“Embora possa ser fácil o suficiente para algumas famílias com horários flexíveis para ajustar, em algumas comunidades, os pais que trabalham apenas para sobreviver não têm o luxo de retardar o início de sua jornada de trabalho”, opinou Al Mijares, superintendente de escolas em Orange County, em artigo em 4 de outubro.

As escolas do Estado devem implementar a nova lei até 1º de julho de 2022 ou até a data de vencimento de qualquer acordo de negociação de distrito ou escola pública independente que esteja em vigor em 1º de janeiro de 2020. A lei não inclui períodos opcionais de aula chamados “períodos zero”, que começam antes da sessão regular da escola.

A Califórnia tem mais de 3 milhões de alunos públicos do ensino fundamental e médio e cerca de 3 em cada 4 começam as aulas antes das 8h30, de acordo com uma estimativa de 2011-12. O início médio dessas escolas na Califórnia era 8:07 da manhã na época, de acordo com uma análise do projeto de lei.

A lei tem uma exceção para escolas em distritos rurais   

“Você pode argumentar que, dada a distância, as viagens e a agricultura, é preciso haver alguma sensibilidade para as comunidades rurais”, disse Portantino. “Mas ainda estamos atingindo 80 a 90% da população estudantil.”

A aprovação da lei veio após anos de pedidos cada vez mais insistentes de especialistas em sono, que disseram que essa medida otimizaria o aprendizado, reduziria o atraso e contribuiria para o bem-estar geral. A lei incentiva os distritos a publicar pesquisas em seus sites sobre o impacto da privação do sono nos adolescentes.

Uma declaração de política frequentemente citada da Academia Americana de Pediatria, feita em 2014, considera o sono insuficiente dos adolescentes um “problema de saúde pública” e recomendou que a maioria das escolas começasse não antes das 8h30 da manhã. A Academia Americana de Medicina do Sono concordou.

Em uma pesquisa de 2006 da National Sleep Foundation, 45% dos adolescentes nos Estados Unidos disseram que dormiam por um período insuficiente nas noites e 19% dos estudantes disseram que caiam no sono na escola pelo menos uma vez por semana.

Impacto para o uso de substânicas como álcool e cigarro

Outro estudo, publicado em 2017 pela Universidade de Minnesota, que pesquisou 9 mil estudantes em cinco distritos escolares com horários de início variados, descobriu que aqueles que começaram a estudar mais tarde dormiram mais. Os estudantes que dormiram mais relataram melhores resultados em saúde mental e menos uso de substâncias como álcool e cigarro. Os estudantes que dormiram mais também tiveram melhores taxas de frequência e matrícula, e eram menos propensos a dirigir enquanto estavam sonolentos.

Cerca de 90% das escolas de ensino fundamental e 80% das escolas de ensino médio do país começam antes das 8h30, disseram os Centros de Controle e Prevenção de Doenças em 2014.

Os estudantes americanos não são os únicos acostumados a acordar cedo. Na Coréia do Sul, os alunos costumam começar o dia antes das 8 da manhã e fazem aulas extras depois da escola até tarde da noite. Mas o país tem uma alta taxa de suicídio entre os adolescentes, e especialistas de lá, como seus colegas nos Estados Unidos, expressaram preocupações com os efeitos da privação do sono na saúde mental dos jovens.

Algumas escolas da Austrália e da Nova Zelândia chegaram a experimentar o horário de início às 10h ou mais, o que, segundo os funcionários da escola, ajudou na atenção às aulas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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