Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Californianos preparam-se para fugir enquanto os incêndios se espalham

Os conhecidos como 'ventos do diabo' alcançaram velocidade de furacões e autoridades emitiram um raro alerta vermelho 'extremo'

Tim Arango e Thomas Fuller / The New York Times , O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 20h54

SANTA CLARITA, EUA – O som berrante das sirenes começou por volta da meia noite do dia 24 de outubro, acompanhado pelas vozes aflitas dos policiais nos alto-falantes ordenando a todos os moradores que abandonassem suas casas, os estreitos vales ao norte de Los Angeles. Cindy e Frank Cruz não tinham certeza de que se tratasse de uma ameaça imediata, mesmo assim, eles e muitos outros moradores não hesitaram em fugir.

“As pessoas não estão dando chance para o azar,” disse Cindy, grávida de sete meses e que passou a noite no carro no estacionamento de um restaurante. Eles estavam entre as 50 mil pessoas que receberam a ordem de abandonar suas casas.

Nesta quarta-feira, 30, o Serviço Meteorológico americano (NWS) emitiu um raro alerta vermelho "extremo" para grande parte da região de Los Angeles com rajadas de ventos de 130 km/h. 

"Os ventos do diabo", disse Peter Sanders, do Corpo de Bombeiros de Los Angeles, se referindo ao apelido dado aos chamados ventos Santa Anas, que alcançaram velocidade de furacões em alguns locais da região nesta quarta-feira, tornando a luta contra eles quase impossível. 

O trauma de incêndios catastróficos dos últimos dois anos apavorou a Califórnia, que registrou mais de 1,3 mil incêndios florestais somente nas últimas semanas. 

Em Paradise, no norte da Califórnia, o incêndio provocou a morte de mais de 80 pessoas no ano passado, e o de Woolsey provocou a destruição na passagem por Malibu e arredores. Consequentemente, este ano, todo mundo – as companhias de energia, os corpos de bombeiros e a própria polícia, assim como os moradores – está sendo extremamente cauteloso.

“Diante da realidade das condições que estamos enfrentando, não devemos absolutamente subestimar a possibilidade de o fogo espalhar-se rapidamente nos bairros”, disse Ken Pimlott, um chefe dos bombeiros que até o ano passado chefiava o maior  departamento de combate aos incêndios da Califórnia, o Cal Fire. “Todo mundo sabe que deve levar esta situação absolutamente a sério”.

No dia 25 de outubro, os incêndios de Santa Clarita, ao norte de Los Angeles, que se alastraram  por 1.870 hectares, haviam destruído  pelo menos 20 habitações e haviam sido contidos em 70%. 

No norte da Califórnia, os bombeiros continuavam combatendo o incêndio de Kincade, que queimara mais de 30 mil hectares até 29 de outubro, e persistia enquanto os moradores se preparavam para outro longo blecaute que, segundo a maior companhia de energia do Estado, poderia prevenir o início de novos incêndios. 

A falta de energia afetou mais de 600 mil clientes da Pacific Gas and Electric, na tentativa de prevenir o que, segundo a companhia, poderia criar as condições mais perigosas deste ano. Cerca de 500 mil clientes da PG&E ainda estavam sem energia por causa dos blecautes anteriores. Como cada cliente residencial representa um domicílio, o numero de pessoas afetadas poderia ser muito maior do que nos apagões anteriores.

Sempre há os que se recusam a sair quando os incêndios ameaçam as suas comunidades, afirmam bombeiros e xerifes adjuntos, mas aparentemente muitos se resignaram a uma nova realidade na Califórnia: permanecerem constantemente de prontidão para o próximo desastre.

Nas áreas vulneráveis, os moradores deixam os tanques de gasolina cheios, cheiram o ar seco do outono para identificar sinais de fumaça e observam ansiosos as colinas queimadas, varridas pelo vento em busca de focos de ignição.

“Acho que as pessoas estão prestando mais atenção aos avisos”, disse Mary Lindsey, de 64 anos, que no dia 25 de outubro tomava o café da manhã em um centro da Cruz Vermelha, instalado em um ginásio no College of the Canyons em Santa Clarita. Ela e o marido haviam abandonado sua casa no dia anterior. 

“Antes, quando havia ordens de retirada, as pessoas as ignoravam. Depois do que aconteceu no ano passado, não estão mais fazendo isto."

Quando ouviram falar do fogo, contou Mary, os vizinhos enfiaram os seus pertences no carro e esperaram a ordem de partir.

O incêndio que começou em um vale acima de Santa Clarita no dia 24 de outubro, alastrou-se cobrindo milhares de hectares no prazo de horas. O marido de Mary, Charles, disse que o fogo, chamado Tick Fire, começou perto de sua casa e atacou com extrema rapidez o matagal.

“Por causa dos ventos, as chamas alastraram-se depressa,” disse Charles, de 68 anos, com a cadela Ivy deitada aos seus pés. “No meio da noite, se avisam para você sair, você precisa sair”.

No dia 25 de outubro, não havia mais fogo ardendo nos morros de Santa Clarita, somente os seus remanescentes que iam se apagando. As ordens de saída foram suspensas, mas as autoridades alertaram aos moradores a tomarem cuidado com o perigo. Ventos fortes eram esperados novamente na área, aumentando o temor de que as chamas pudessem se reacender.

Cerca de 156 mil pessoas foram retiradas no norte da Califórnia enquanto o Kincade Fire avançava, destruindo mais de 120 construções e ameaçando  centenas de outras.

Embora 15% do fogo estivesse contido no dia 29 de outubro,  Pimlott, o ex-diretor do corpo de Bombeiros da Cal-Fire, disse que o tom agressivo das autoridades em seus planos de retirada estava totalmente certo.

Os incêndios estão avançando mais rapidamente do que no passado, afirmou, muitas vezes deixando as pessoas sem tempo suficiente para reagir. O Camp Fire do ano passado tomou a cidade de Paradise nas primeiras horas da manhã, matando muitas pessoas que não conseguiram deixar suas casas. “Quando o fogo atinge o seu bairro, já é tarde demais,” afirmou.

Ao mesmo tempo, as empresas de fornecimento de energia de todo o Estado alertaram que  poderia haver cortes preventivos. Os apagões, que no começo de outubro deixaram mais de dois milhões de pessoas às escuras, destinaram-se a prevenir a  possibilidade de que as linhas elétricas provocassem futuros focos de incêndio durante as tempestades de vento.

O governador Gavin Newsome, que declarou estado de emergência no dia 27 de outubro, disse que o Estado destinaria US$ 75 milhões para ajudar as prefeituras a continuarem suas atividades durante os blecautes.

Entretanto, apesar da estratégia cautelosa diante da ameaça de fogo, houve sinais de que o Kincade Fire pode ter sido provocado por equipamento elétrico que a PG&E decidiu não desligar. A companhia cortou a energia de 200 mil clientes, mas não a cortou em uma linha de transmissão que informara não funcionar direito antes do início do incêndio. 

Bill Johnson, o diretor executivo da PG&E Corporation, disse em uma entrevista coletiva no dia 24 de outubro que, com base na análise da companhia, as previsões dos ventos não autorizaram o corte de energia para as linhas de transmissão na área do Kincade Fire.

Entre as diversas famílias que fugiram do fogo estavam Adalberto e Irma Silva, que deixaram sua casa na cidade de Geyserville, famosa pela produção de vinhos, depois que a polícia foi de porta em porta ordenando as saídas.

“A cidade está vazia”, afirmou Adalberto, que trabalhava em vinícolas vizinhas desde que deixara o estado de Michoacán no México, em 1981.

O casal morou com os filhos agora crescidos no tranquilo enclave perto do Russian River por 11 anos, uma região ameaçada tanto pelos incêndios quanto pelas enchentes. “Quando não é a água, são os incêndios”, disse Irma. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

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