Mandel Ngan/AFP
Mandel Ngan/AFP

Calma em meio à tempestade

Governo frenético e instável de Donald Trump criou políticas atrapalhadas e linhas de ação inflexíveis

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2019 | 05h00

O dia 4 de julho custou a chegar para Donald Trump. Ontem, ele finalmente finalizou os planos para seu cortejo “Saudação à América”, o Dia da Independência dos EUA, com o qual sonhava desde que viu as colunas de carros blindados e os vigorosos legionários de Emmanuel Macron, na França, há dois anos – incluindo tanques, aviões e outras coisas que foram prometidas, além do próprio Trump. Os admiradores do presidente, doadores de campanha e outros apoiadores, para os quais uma parte do National Mall foi reservada, compareceram para desfrutar da cerimônia.

Também um prazer para o presidente foi o fato de seus críticos se mostrarem indignados. Segundo as notícias, US$ 2,5 milhões foram canalizados para pagar a conta da festa e os tanques poderiam danificar as cúpulas do Memorial a Lincoln. Ver o Dia da Independência politizado foi triste. Para um presidente que tornou um hábito “caçoar dos progressistas” no Twitter, isso era parte do plano e uma distração oportuna.

Trump, no seu primeiro mandato, comprometeu-se com uma série de medidas ousadas de política externa, incluindo melhorar o comércio dos EUA com a China, solucionar os problemas envolvendo a ameaça nuclear de Coreia do Norte e Irã, retirar o país da guerra no Afeganistão, pacificar o Oriente Médio e restaurar a ordem na fronteira mexicana. Mas ficou aparente numa recente cascata de más notícias que ele tem chances cada vez menores de honrar suas promessas.

Em reunião com Xi Jinping durante a cúpula do G-20 em Osaka, ele concordou em estender as negociações comerciais com a China – mas somente depois de fazer concessões, incluindo a revogação da sua decisão de colocar na lista negra a empresa de telecomunicações Huawei, que seu governo acusa de espionagem. Xi também adotou um tom menos conciliador do que havia manifestado antes do encontro dos dois líderes na Argentina, no ano passado.

As perspectivas de um acordo parecem remotas e a viagem posterior para uma reunião com Kim Jong-un na Coreia do Norte pareceu um esforço para desviar a atenção deste recuo. Por outro lado, sua viagem lembrou que, apesar do afeto de Trump, Kim não adotou nenhuma medida para desnuclearizar a península – e ninguém espera que ele o faça.

Felizmente para Trump, o esforço bastante criticado de sua filha Ivanka para se promover nesse encontro ofereceu uma distração adicional. O desfile de Ivanka perante as câmeras desviou os olhos das pessoas do principal. A lista é longa. O Irã declarou ter estocado mais de 300 quilos de urânio enriquecido, quebrando a promessa de que não o faria.

Os negociadores americanos se preparavam para retomar conversações com o Taleban sem a presença de representantes do governo afegão eleito. Os insurgentes também intensificaram os ataques no país. Se Trump prosseguir com seu plano de retirar as tropas do Afeganistão, corre o risco de desencadear uma explosão. No caso do Oriente Médio, melhor nem falar.

O encontro de cúpula no Bahrein, na semana passada, no qual seu genro Jared Kushner apresentou seu projeto econômico para a paz, foi uma farsa. Trump manteve à distância os palestinos, que não participaram.

Quanto ao problema da fronteira, pode ser o fracasso mais nefasto de todos. Apesar do seu esforço para o México adotar medidas para dissuadir as travessias, elas vêm aumentando, o que deixa a base de Trump nervosa, mesmo que o tratamento brutal dos imigrantes enfureça todo mundo.

Nem tudo é culpa de Trump. Ele tem enfrentado problemas que governos anteriores não conseguiram superar. No caso de China e Afeganistão, especialmente, seu enfoque é novo e pode criar uma base para avanços. O problema é que o seu divisionismo implacável, que agora o prejudica mais no plano interno do que no externo, afeta suas perspectivas.

Suas políticas para Irã, Coreia do Norte e Oriente Médio foram adotadas muito mais para repudiar as medidas de seu predecessor – o que tem incentivado os democratas a se oporem a todas as tentativas, mesmo quando compartilham dos seus objetivos. O cisma partidário estimula os outros países a apostarem no longo prazo, esperando melhores condições ou um futuro governo democrata.

A única maneira de o presidente desentranhar o progresso que anseia seria fazer mais concessões: por exemplo, concordando com um pacto comercial mais brando com a China ou uma réplica do acordo firmado por Barack Obama com o Irã. Mas, neste caso, a reação contrária virá do seu próprio partido.

Marco Rubio, um dos vários senadores republicanos que consideram a política externa um espaço seguro a partir do qual podem criticar o presidente, qualificou o acordo sobre a Huawei de “erro catastrófico”.

E isto reflete um dilema mais amplo para o presidente. Como agora ele tem poucas perspectivas de expandir seu apoio além da grande minoria de americanos que ainda não se sentiu atingida por ele, Trump precisa a qualquer custo manter a coalizão republicana.

Portanto, ele está limitado pela política como também pelo medíocre avanço dos esforços para chegar a acordos. As controvérsias diárias que ele cria, incluindo o show desta semana nas escadarias do Memorial a Lincoln, têm por finalidade mascarar essa realidade.

É deprimente como a tática vem funcionando bem. Reagindo à provocação diária, a oposição faz o que ele faz: fustiga seus apoiadores sem, de alguma maneira, impressionar o outro lado. Para ser justo, é difícil não se irritar. As controvérsias fomentadas por Trump, incluindo a politização do Dia da Independência, são com frequência escândalos de fato. Mas seus críticos correm o risco de perder de vista o histórico do seu governo, que indica que ele é menos instável do que muitos acreditam, um governo com pouco apoio e sem políticas próprias, a 18 meses de uma eleição que, na maior parte, foram desperdiçados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.