REUTERS/Ueslei Marcelino
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Calotes fazem exportação à Venezuela ser a menor em 18 anos

Nos seis primeiros meses de 2017, as exportações brasileiras para o mercado venezuelano sofreram uma redução de 54% em comparação com o mesmo período de 2016

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2017 | 14h22

GENEBRA - A crise política e econômica na Venezuela levou a exportação brasileira para este país a cair ao nível mais baixo em pelo menos 18 anos. Nos seis primeiros meses de 2017, as exportações brasileiras para o mercado venezuelano sofreram uma redução de 54% em comparação com o mesmo período de 2016. No ano passado, volume não passou de US$ 1,2 bilhão, enquanto nos primeiros seis meses de 2017 o valor foi de apenas US$ 241 milhões. Se no restante deste ano a tendência se mantiver, o total deve somar apenas 10% do que o Brasil exportou no auge da relação bilateral. 

Sem dólares para poder pagar as transações, com falta de créditos nos bancos e um mercado doméstico em franca queda, os importadores venezuelanos também deixaram de buscar produtos. Se o atual ritmo de vendas continuar no segundo semestre, o Brasil deve acumular exportações equivalentes aos valores que existiam entre os dois países no início do século, quando cerca de US$ 600 milhões eram comercializados pelas empresas brasileiras no mercado venezuelano por ano. 

Em junho, a Venezuela era apenas o 56.º principal destino de vendas nacionais. Hoje, mercados como o da Eslovênia ou Paquistão compram mais produtos brasileiros que o venezuelano. Em 2012, a Venezuela chegou a ser o oitavo maior parceiro do País, superando Índia e Rússia. No Amazonas, o peso do mercado vizinho levou as empresas da região a registrarem uma queda de 6% nas vendas totais nos seis primeiros meses do ano. No ano passado, as vendas nacionais para Caracas já tinham registrado uma contração de 57%. Em 2015, a queda foi de 35%.

Diplomatas consultados pelo Estado revelaram que um dos temas mais frequentes na relação bilateral tem sido o acúmulo de dívidas entre o Estado venezuelano e fornecedores brasileiros. Muitos optaram por suspender as vendas. Fontes no governo falam em uma dívida de mais de US$ 5 bilhões acumulados ao longo dos últimos três anos. 

Em maio, o Banco Central do Brasil tomou a decisão de interromper a concessão de uma garantia dada ao setor privado nacional para exportar para a Venezuela. Com a decisão, o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR) foi suspenso e o BC explicou que a medida fazia “parte da política de gerenciamento de risco do BC". O impacto foi sentido especialmente nos setores que dependem de créditos para assegurar suas vendas.

Durante a administração de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela, os dois países assinaram diversos acordos comerciais. Foi Brasília quem insistiu em colocar Caracas no Mercosul.

Dados publicados pela Organização Mundial do Comércio revelam que a Venezuela chegou a ser um dos três principais destinos créditos dados pelo BNDES para investimentos e exportação de empresas brasileiras ao país vizinho. Um informe do TCU ainda apontou que obras na Venezuela estiveram entre as que mais receberam créditos do BNDES, num total de U$ 11 bilhões entre 2006 e 2014. Apenas a atuação do banco em Angola superou a relação com Caracas.

Essa aproximação resultou em um salto nas vendas nacionais para o mercado vizinho. O auge foi atingido em 2008, quando o Brasil exportou mais de US$ 5 bilhões para a Venezuela, valor repetido em 2012 e 2013. Desse total, US$ 3,2 bilhões eram de produtos industrializados, algo raro para a balança comercial brasileira com um parceiro.

Se confirmada a tendência do primeiro semestre deste ano, a Venezuela ainda terminará 2017 como o menor parceiro comercial do Brasil na América do Sul. No setor de carnes, a queda nas vendas foi de 60%, enquanto o café teve queda de 80%. Produtos químicos registraram uma retração de 51%, enquanto remédios viram uma redução de 82%. Com a indústria venezuelana paralisada, a venda brasileira de máquinas e bens de capital sofreu queda de 65%. 

Uma rara exceção é a alta na venda de arroz e açúcar de Roraima para o mercado venezuelano. Mas o comércio representa apenas US$ 4 milhões em seis meses e se refere principalmente ao abastecimento de cidades da fronteira com o Brasil. 

Já as exportações venezuelanas ao Brasil, ainda que em valores muito inferiores, conseguiram se manter em um mesmo patamar. Entre janeiro e junho de 2016, ela foi de US$ 232 milhões. Neste ano, a queda foi de apenas 1,4%. Produtos derivados do setor de petróleo e fertilizantes foram os principais itens de vendas dos venezuelanos.

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