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Calouros são ameaçados

Versão afegã de ?Pop Idol? desafia proibição do Taleban

Simon Broughton,The Guardian, CABUL, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

O Estrela Afegã, versão no Afeganistão do programa Pop Idol (franquia que inspirou, no Brasil, o programa Ídolos), tornou-se um fenômeno nacional, apesar - ou talvez por causa - do fato de alguns dos concorrentes estarem arriscando suas vidas ao participar. As candidatas mulheres, em especial, tornaram-se alvo do ódio dos radicais islâmicos. Mas o prêmio é considerável: além da fama, o vencedor leva US$ 7 mil, o equivalente a dez vezes um salário médio local.Quando governou o país (1996-2001), o Taleban proibiu a música. Agora, é grande a esperança de que esse programa de sucesso possa unir os diferentes grupos étnicos do Afeganistão e ajudar a pôr fim aos conflitos. Daoud Sediqi, que apresentou as três primeiras temporadas do programa - lançado em 2005 -, disse certa vez que o objetivo do Estrela Afegã era "afastar as pessoas das armas e aproximá-las da música". Sediqi - que se rebelou contra o Taleban ao consertar secretamente câmeras de vídeo pessoais - não exagerou ao falar da imensa influência exercida pelo programa. A final foi vista por 11 milhões de afegãos, o equivalente a um terço da população, e todos votaram no seu cantor favorito por meio de telefones celulares; para muitos, foi a primeira oportunidade de sentir o gosto da democracia.A última temporada foi acompanhada por uma equipe de cinegrafistas britânicos. "Tivemos muita sorte", disse a diretora Havana Marking. "Gravamos justamente no momento em que o programa começou a fazer muito sucesso, e tudo começou a se encaixar. Entre os dez finalistas escolhidos pelos jurados havia duas mulheres. E todos os grupos étnicos estavam representados."Em janeiro, o documentário de Havana (também batizado de Estrela Afegã) recebeu dois prêmios na categoria internacional do festival de cinema de Sundance: melhor direção de documentário e o prêmio de escolha do público para a categoria documentário.Havia apenas 3 mulheres entre as 2 mil pessoas que fizeram testes para participar do programa. O fato de duas delas estarem entre os dez finalistas sugere que foi usada uma dose de discriminação positiva (os jurados reduzem o número de participantes a dez e as mensagens de texto decidem o vencedor). O documentário segue a trajetória de quatro participantes: dois homens e duas mulheres. "Quero ser famoso para cantar para meu povo", diz Rafi Nabzaada, tajique de 19 anos. O mais confiante dentre os participantes, ele é filmado enquanto visita o santuário de Hazrat Ali, na cidade de Mazar-i-Sharif, e o imã reza pela sua vitória. Hameed Sakhizada, de 20 anos, é o mais musical. Ele é um hazara, etnia da região central - onde o Taleban explodiu os Budas de Bamiyan - e se interessa pela música tradicional. "Mas um artista precisa seguir o gosto do público", diz. "Se o público quer música pop, eu tenho de dar a ele música pop." Lema Sahar, de 25 anos, é uma cantora pashtun de Kandahar, onde a presença do Taleban é forte. Sendo mulher, ela corre risco simplesmente por participar do programa. "A música é proibida pela religião", diz. "Mas por que eu deveria escondê-la? Cantar faz parte da minha tradição." Conforme o concurso se aproxima do ápice, ela diz que até mesmo o Taleban está votando nela - porque ela pertence à etnia pashtun. Por último, temos Setara Hussainzada, de 22 anos, de Herat, uma cidade do oeste do Afeganistão. "Acredito que não há diferença entre homens e mulheres", declara. "Mantenho a mente aberta. Não tenho medo." Mas Setara, solteira e morando sozinha (um fato quase inédito no Afeganistão), tem muito a temer. Apesar de não haver no Alcorão nada que proíba a música, muitos muçulmanos a reprovam, assim como a dança, por considerá-las um incentivo ao comportamento libertino. O programa já foi advertido pelo Conselho Islâmico por "iludir o povo".CANDIDATOS À FAMALema SaharCantora, de Kandahar"Cantar é proibido pela religião, mas faz parte da minha tradição"Setara HussainzadaCantora, de Herat"Mantenho a mente aberta. Não tenho medo"

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