Carlos Garcia/Reuters
Carlos Garcia/Reuters

Camacho: quem é o líder opositor que ajudou a derrubar Evo Morales

Luis Fernando Camacho virou personalidade política importante na Bolívia, mesmo não sendo afiliado a partidos ou tendo cargos públicos

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 08h00

“Com a Bíblia, o rosário e a carta de renúncia nas mãos, pedimos a Deus uma Bolívia nova e reestruturada na democracia”. Foi essa a mensagem publicada nas redes sociais de Luis Fernando Camacho, opositor a Evo Morales que ganhou força nos dias seguintes às eleições questionadas por fraude, em 20 de outubro.

Natural de Santa Cruz de La Sierra, uma das regiões mais ricas do país andino, o advogado e presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz tem na fé e no discurso religioso um de seus principais argumentos para liderar os protestos que culminaram com a renúncia de Evo no último domingo.

Camacho é uma personalidade política no país, especialmente em Santa Cruz, reduto da classe empresarial majoritariamente opositora a Evo. A região foi apelidada de “governo moral”, enquanto desde o início das manifestações contra a reeleição de Evo, Camacho foi apresentado em Santa Cruz como “o presidente”.

No domingo, ele conseguiu invadir o palácio do governo da Bolívia, horas antes da renúncia de Evo, com uma bíblia e a bandeira do país, posicionando-as uma em cima da outra. No Twitter, ele publicou a mensagem: “Nossa luta não é com armas, é com fé”.

No mesmo dia, aos pés do Cristo Redentor de Santa Cruz, a apoiadores e integrantes de associações de empresários, Camacho fez um discurso televisionado ao público, onde disse que iria mobilizar o andamento de investigações e processos judiciais contra Evo, seu vice Álvaro Garcia e “todos os seus ministros, porque eles formaram parte das mortes da nossa gente. Não é ódio nem ressentimento, se chama justiça divina”. 

O aumento das denúncias de fraude eleitoral na Bolívia, após Evo ter sido reeleito ainda em primeiro turno com uma paralisação de 20 horas da contagem dos votos, fez com que Camacho organizasse grandes comícios em Santa Cruz.

Ele foi o primeiro a pedir, em público, o apoio dos militares bolivianos para ficarem “ao lado do povo” e auxiliarem na retirada de Evo do poder. As declarações fizeram com que as alas governistas o acusassem de articular um golpe militar no país.

Foi ele também quem tentou viajar a La Paz para entregar uma carta de renúncia que Evo deveria assinar, no início de novembro. Ao desembarcar na capital boliviana, Camacho foi recebido por apoiadores de Evo e não conseguiu deixar o aeroporto, fazendo com que ele decidisse retornar a Santa Cruz.

Com cerca de 80 mil seguidores no Twitter, Camacho publica vídeos com mensagens em que fala de Justiça divina, fé e o papel de Deus no processo para derrubar Evo Morales do governo - o boliviano estava no comando do país desde 2006 e foi o presidente que mais tempo esteve à frente da nação de 11 milhões de habitantes.

A caída de Evo também culminou nas renúncias do vice-presidente, Álvaro García, a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, e o líder da Câmara, Victor Borda, além dos vice-presidentes da Câmara e do Senado.

Para a professora Denilde Holkzacker, professora de relações internacionais da ESPM, o vácuo de poder favoreceu Camacho, cujo protagonismo foi até maior que o do ex-presidente Carlos Mesa, segundo colocado nas eleições e representante de uma oposição mais moderada.

“Ele (Camacho) vem de um estado fortemente opositor, que é Santa Cruz, tem um grupo de oposição muito forte e, diferente de outros líderes, ele está ligado a grupos conservadores católicos. Ele se destacou muito na mobilização”, disse.

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