Câmara ainda debate poderes especiais a Cavallo

Três dias depois do início dos debates parlamentares onde se discutia a concessão de super-poderes para o ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, as discussões se encontravam ainda atravancadas no fim desta terça-feira. Para apressar os parlamentares, Cavallo reuniu-se com os senadores do partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição. Cavallo pediu pressa aos deputados e conseguiu dos senadores a promessa de que a Câmara Alta será mais rápida do que a Câmara Baixa no debate e na votação dos poderes especiais.Super-ministro, ma non troppo, afirmavam ironicamente os comentaristas políticos, Cavallo não conseguiu convencer o Parlamento a lhe dar poderes para colocar ativos do Estado ou a arrecadação tributária futura como garantia para títulos da dívida.Os parlamentares também impediram que Cavallo possa eliminar subsídios às províncias pobres do país e proibiram a suspensão da isenção do pagamento de alguns impostos para a cesta básica.No entanto, até esta terça-feira à noite o ministro obteve dos deputados os poderes para realizar as reformas do Estado.Com esta ferramenta, Cavallo poderá transformar órgaos estatais em empresas ou sociedades públicas. Houve forte oposição a esta medida, já que diversos parlamentares consideraram que se tratava de uma privatização encoberta.Em troca, os parlamentares querem que não sejam realizadas demissões pelo prazo de dois anos nestas empresas.Os deputados também concordaram em conceder os poderes especiais pelo prazo de um ano. Os senadores, no entanto, pretendiam limitar esta pretensão de Cavallo a somente seis meses.Após o encontro com os parlamentares, Cavallo discursou para os principais empresários e banqueiros do país no Banco de la Nación. Ali, o ministro deu um duro recado ao setor financeiro e, referindo-se às taxas de juros obtidas nas emissões de letras do tesouro nos últimos meses, Cavallo afirmou que o governo não aceitará taxas que não sejam sensatas.Para explicar sua forma de tirar o país da crise, Cavallo recorreu à letra de um tango e declarou que "é preciso segurar a frigideira pelo cabo e a frigideira também".Segundo Cavallo, "desta forma não vamos depender de que nos emprestem, principalmentre com taxas de juros enormes".O modus operandi do ministro para conseguir esta independência será o de arrecadar mais, através de impostos sobre operações financeiras. Segundo Cavallo, "pedimos colaboração ao Brasil, que possui um bom sistema na CPMF".Cavallo também disse que daqui a um ano a Argentina somente teria dois grandes impostos: "um, sobre a receita, e o outro, sobre o valor agregado, que será aplicado quase sem isenções, com as taxas mais baixas possíveis".O ministro pediu a colaboração dos banqueiros para arrecadar os impostos e lutar contra a evasão tributária. Além disso, Cavallo sustentou que a DGI (Receita Federal) tinha com o setor privado "uma dívida de 8 bilhões de dólares" por causa da antecipação de impostos, que eram pagos no momento em que os produtores compram equipamentos e insumos.Cavallo disse que tomaria medidas contra isso.Segundo o ministro, o país terá recuperado competitividade até o fim do ano, graças à eliminação gradual de impostos "distorsivos".Com um discurso inédito, Cavallo disse que os trabalhadores argentinos somente consumirão mais quando se sintam seguros de que não irão perder seu emprego em breve: "Hoje, as pessoas não consomem porque temem pelo seu futuro".Desde que tomou posse, o presidente Fernando de la Rúa convocou diversas "mesas de diálogo" com diversos setores políticos. No entanto, nenhuma dessas tentativas deu frutos.Mas De la Rúa não desiste e convocou para esta semana uma reunião com os ex-presidentes Raúl Alfonsín (1983-89) e Carlos Menem (1989-99). Os dois ex-presidentes são os presidentes atuais de seus partidos: Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), e Menem, do Partido Justicialista (também conhecido como "Peronista").Alfonsín controla uma ampla parte da UCR, partido de De la Rúa, e não aceitou facilmente conceder amplos poderes a Cavallo. Menem, embora presidente do peronismo, perdeu o controle que exerceu no passado sobre seus subordinados e atualmente controla pouco mais de 20 deputados (de um total de 99 peronistas).Com o apoio deles, De la Rúa pretende criar uma base de sustentação política que no momento é escassa para o presidente no Congresso.O ex-ministro do Interior Federico Storani afirmou que "se Cavallo fosse embora amanhã deste governo, isto produziria uma verdadeira hecatombe. E isto significa que ele tem um poder real".Storani, que deixou o gabinete De la Rúa em protesto contra a entrada de Cavallo, declarou que De la Rúa "cedeu poder" ao ministro da Economia. "O governo gira ao redor de Cavallo", sustentou.

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