Tasos Katopodis/Getty Images/AFP
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Câmara dos EUA entrega impeachment de Trump ao Senado, com republicanos divididos

Ação marca dois fatos inéditos: Trump é o único presidente americano a sofrer impeachment na Câmara duas vezes e será o primeiro a ser julgado depois de deixar o cargo

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 14h00
Atualizado 25 de janeiro de 2021 | 21h51

WASHINGTON – A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos apresentou nesta segunda-feira, 25, ao Senado a acusação contra o ex-presidente Donald Trump de incitar uma insurreição em um discurso incendiário a seus seguidores antes do ataque deste mês ao Capitólio que deixou cinco mortos. A medida dá prosseguimento ao segundo processo de impeachment contra Trump em meio a dúvidas sobre se haverá respaldo suficiente entre os republicanos para condená-lo.

Nove deputados designados pela presidente democrata da Câmara, Nancy Pelosi, que atuarão como procuradores levaram esta noite a ata de acusação ao Senado, onde Trump será julgado, apesar de já ter deixado o cargo após a derrota para o democrata Joe Biden nas eleições presidenciais do ano passado.

A ação marca dois acontecimentos inéditos: Trump é o único presidente americano a sofrer impeachment na Câmara duas vezes e será o primeiro a ser julgado depois de deixar o cargo. Uma condenação no Senado pode resultar em uma votação para impedi-lo de voltar a ocupar cargos públicos.

Líderes do Senado, que está dividido pela metade entre democratas e republicanos, mas onde os democratas têm maioria por causa do voto de desempate da vice-presidente da república e presidente da Casa, Kamala Harris, concordaram em não iniciar o julgamento antes de 9 de fevereiro.

Isto dá a Trump mais tempo para preparar uma defesa, e permite à Câmara se concentrar nas prioridades iniciais do presidente Biden, incluindo indicações ao gabinete e, possivelmente, discutir seu pedido para uma nova rodada de auxílio financeiro para a população atingida pelo coronavírus.

Se o Senado considerar Trump culpado, ele se tornará o primeiro presidente na história dos EUA a ser condenado em um julgamento de impeachment. Para condenar Trump, dois terços dos senadores teriam de aprovar o artigo de impeachment, isto é, pelo menos 17 republicanos teriam de se voltar contra o ex-presidente. 

Segundo levantamento feito pelo jornal The Washington Post, dos 100 senadores da Casa, 40 são a favor do impeachment de Trump, 23 considerarão a condenação, 29 são decididamente contrários e 8 manifestaram “posições ambíguas”.

O democrata Patrick Leahy, o membro mais antigo do Senado, informou nesta segunda-feira que presidirá o julgamento. Embora a Constituição exija que o presidente da Suprema Corte presida os impeachments presidenciais, um senador preside quando o impeachment não é o atual presidente, explicou uma fonte do Senado. Eleito pela primeira vez para a Câmara em 1974, Leahy, de 80 anos, detém o título de presidente pro tempore do Senado. 

O presidente da Suprema Corte, John Roberts, presidiu o julgamento de impeachment quando o Senado, controlado pelos colegas republicanos de Trump, absolveu o presidente em fevereiro de 2020 por acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso decorrentes de seu pedido para que a Ucrânia investigasse o presidente Biden e seu filho Hunter. Leahy ainda poderá votar no julgamento. 

Uma pesquisa Reuters/Ipsos de sexta-feira revelou que 51% dos americanos acreditam que o Senado deveria condenar Trump. O número se dividiu essencialmente de acordo com as filiações partidárias, já que menos de 2 em 10 republicanos concordam.

Divisão entre republicanos

O segundo julgamento de impeachment de Trump sob a acusação de incitar a invasão do Capitólio agravou uma disputa entre seus colegas republicanos. Um republicano, o senador Mitt Romney, disse acreditar que o julgamento foi uma resposta necessária ao apelo inflamado do ex-presidente a seus partidários para “combater” sua derrota eleitoral na invasão do dia 6. Dez republicanos se juntaram aos democratas na Câmara no voto pelo impeachment.

“O artigo de impeachment enviado pela Câmara sugere conduta impugnável”, disse Romney, crítico frequente de Trump e que votou pela condenação durante o primeiro julgamento de impeachment, à Fox News no domingo. “Está bastante claro que durante o ano passado e agora houve uma tentativa de corromper a eleição dos Estados Unidos e não foi pelas mãos do presidente Biden, e sim pelo presidente Trump.”

Na noite após a invasão dos apoiadores de Trump ao Capitólio – um ataque que deixou cinco mortos, fez os legisladores se esconderem e atrasou a atividade do Congresso por algumas horas, justo no momento de certificar a vitória de Biden nas eleições – vários republicanos condenaram a violência. O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, culpou Trump pelo ocorrido, dizendo que ele “provocou” a multidão.

Mas um número significativo de parlamentares republicanos, preocupados com a fervorosa base de eleitores de Trump, suscitaram objeções ao impeachment. O senador republicano Tom Cotton disse que o Senado estava agindo além de sua autoridade constitucional ao conduzir o julgamento. “Acho que muitos americanos vão achar estranho que o Senado esteja gastando seu tempo tentando condenar e destituir um homem que deixou o cargo há uma semana”, disse Cotton à Fox News no domingo.

Romney disse que concordou com o que chamou de preponderância da opinião jurídica de que um julgamento de impeachment ainda é apropriado depois que alguém deixa o cargo. Ele disse que a prestação de contas exigia o julgamento, porque Trump havia liderado uma tentativa de “corromper” a eleição nacional vencida por Biden.

Nem todos concordam. “Acho que o julgamento é estúpido”, disse o senador republicano Marco Rubio à Fox News, dizendo que votará contra o impeachment na primeira oportunidade. “Eu acho que é contraproducente. Já temos uma fogueira neste país e é como pegar um monte de gasolina e jogá-la sobre o fogo.”

O líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que o julgamento será justo, mas em um ritmo relativamente rápido. “Será um julgamento justo, mas relativamente rápido”, disse Schumer em entrevista coletiva em Nova York. Ele disse que não deverá tomar muito tempo porque “temos muito mais o que fazer”./ AP, REUTERS e NYT

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