Camboja leva líder do Khmer a julgamento

Duch é acusado da tortura e morte de 14 mil e será o primeiro líder do regime a tornar-se réu

Reuters E AP, CAMBOJA, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 00h00

Um dos principais comandantes da guerrilha Khmer Vermelho, Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, foi levado ontem a julgamento em Phnom Penh, capital do Camboja, sob acusação de crimes contra a humanidade e genocídio cometidos na prisão S-21, onde 14 mil homens, mulheres e crianças foram presas, torturadas e mortas entre 1975 a 1979, sob seu comando.Duch, hoje com 66 anos, é o primeiro membro da cúpula do Khmer a ser julgado desde a queda do regime ultracomunista que provocou a morte de pelo menos 1,7 milhão de cambojanos, o equivalente a um quinto da população do país na época. O regime do Khmer é acusado de promover um dos mais sangrentos massacres do século 20, considerando o porcentual da população afetada pelas execuções, prisões e tortura.Nesta semana, o tribunal - uma força-tarefa da Organização das Nações Unidas (ONU) em conjunto com a Justiça cambojana - definirá o cronograma do julgamento, planejado para começar em março, quando mais de 40 testemunhas e vítimas do regime estarão frente a frente com Duch, que pode ser condenado à prisão perpétua."Esperamos 30 anos por esse dia", disse Vann Nath, de 63 anos, um dos 20 sobreviventes do Campo S-21. "Eu olho hoje para Duch e vejo um senhor muito gentil, mas ele não era assim 30 anos atrás."Centenas de pessoas, incluindo monges budistas vestidos com roupas tradicionais, acompanharam a sessão. Os monges, que foram duramente perseguidos pelo Khmer, protestaram quando Duch entrou na sala.REMORSODuch diz-se hoje um cristão fervoroso. Seu advogado, o francês François Roux, anunciou que ele "gostaria de pedir perdão às vítimas e ao povo cambojano, publicamente"."Ele decidia quanto tempo um prisioneiro viveria, uma vez que ordenava as execuções com base em preferências pessoais", revela um documento do tribunal divulgado em agosto. O relatório registra ainda episódios em que Duch deu ordens como "matem a todos" e "interroguem quatro pessoas e matem o resto".

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