Camden, a cidade esquecida pelos EUA

Lugar mais miserável do país, segundo o censo, míngua há quatro décadas e tem 36% da população vivendo abaixo da linha de pobreza

Denise Chrispim Marin, enviada especial a Camden,

06 de novembro de 2012 | 10h30

CAMDEN - Camden, New Jersey, a mais pobre cidade dos EUA, foi esquecida pelos candidatos à Casa Branca na eleição de hoje. Barack Obama esteve do lado oposto do Estado há uma semana, para ver o estrago causado pela tempestade Sandy em Atlantic City. Mitt Romney fez comício em Yardley, subúrbio de classe média de Filadélfia a 42 quilômetros de Camden. Nenhum viu como a pobreza consome uma cidade há quatro décadas, após sete de prosperidade.

Na última eleição, 90% dos eleitores de Camden deram seu voto a Obama, que não pisou durante todo o mandato na comunidade de 77,3 mil habitantes, dos quais 36% vivem abaixo da linha de pobreza, e exposta a uma das mais altas taxas de violência dos EUA. O tempo em que era sede de grandes indústrias, como a Campbell Soup, a RCA Victor e a Lockheed Martin, tornou-se lembrança tão remota quanto os anos em que o poeta Walt Whitman ali viveu, no século 19.

Whitman a chamou de "a cidade invencível". Camden hoje tem o título de a mais pobre das cidades dos EUA, segundo o censo de 2010. Sua rua principal, Broadway, em nada lembra a via de Nova York. É uma sequência de lojas para consumidores de baixíssima renda, de casas geminadas carcomidas pelo tempo e pelo descuido, terrenos baldios e igrejas evangélicas.

A população decaiu gradualmente depois de chegar, na década de 50, ao recorde de 124,5 mil habitantes. A taxa local de crimes violentos é de 2,33 por 1.000 habitantes – mais de cinco vezes a média nacional.

O ativista social Frank Fulbrook, morador de Camden, afirma ser a cidade motivo de constrangimento. Ao longo dos últimos anos, na medida em que os investimentos começaram a deixar o local, a classe média igualmente fugiu para locais mais promissores. Restaram trabalhadores menos qualificados que foram se aposentando e jovens sem perspectiva, muitos entregues às drogas. A polícia constata haver 150 pontos de droga na cidade, que atrai jovens de classe média, moradores de condomínios da vizinhança.

O porto-riquenho Jorge Véllez, de 63 anos, escolheu Camden para morar em 1967. Na época, havia muita oferta de trabalho para um jovem que, como ele, buscava uma vida melhor nos EUA.

Empregou-se em funilarias e em restaurantes, criou seus dois filhos – ambos desempregados atualmente e dependentes de sua ajuda financeira – e aposentou-se. Véllez vive na mesma casa de sempre. Mas pensa voltar para Porto Rico.

"Não sei o que aconteceu com essa cidade. As empresas foram fechando, as pessoas perderam seus empregos e hoje não há mais trabalho para a juventude", afirmou ele, logo depois de se declarar "100% Obama".

Seu vizinho Eric Molina, portuário aposentado de 53 anos, tampouco entende o declínio econômico e social da cidade, resultado da fuga de investimentos. "Vim de Porto Rico para cá com os meus pais quando eu tinha 12 anos. Era uma delícia de lugar. Deixavam leite e jornal na porta de casa. Não havia criminalidade. A cidade era mais adiantada e modernizada", afirmou o morador do sobradinho 741 da Cherry Street. Molina é eleitor democrata. Mas se deixou atrair pela oposição quando Ronald Reagan foi o candidato à Casa Branca, em 1980. Desta vez, como Véllez, vota por Obama.

Segundo Fulbrook, a maior parte dos habitantes de Camden vive de suas aposentadorias e pensões e dos programas federais de assistência aos mais pobres, como o selo alimentação. Sem condições de arrecadar impostos, a cidade depende de repasses dos governos federal e estadual. Mesmo o salário do prefeito, de US$ 125 mil ao ano, é bancado pela União.

Em 2000, o então prefeito, Milton Milan, foi preso por corrupção. Antes dele, outros dois haviam seguido esse caminho, e cinco anos depois, a prefeitura decidiu reconstruir um aquário com o estranho objetivo de atrair o turismo. Outros investimentos mostravam-se mais promissores, como a instalação de dois hospitais e uma faculdade.

A aposentada negra Carolyn Pease, de 71 anos, vive ao lado da Igreja do Sagrado Coração, o centro de uma série de projetos sociais do monsenhor Michael Doyle, um ativista contra a Guerra do Vietnã, nos anos 70.

Por mês, ela recebe US$ 725 (R$ 1.450) de aposentadoria. Ex-caixa de supermercado, Carolyn conseguiu quitar a hipoteca da casa graças ao testamento de uma das freiras da paróquia. O filho, preso por vários anos, está desempregado. Para ela, Obama entende os mais pobres e se esforça por eles. "É preocupante que Romney possa vencer", afirmou.

O monsenhor Doyle desenvolveu um projeto de reconstrução de sobrados na vizinhança da paróquia para serem cedidos a famílias locais com a contrapartida de pagamentos simbólicos. Mais de 250 casas já foram entregues. Dessa maneira, segundo o voluntário Pat Molingham, a igreja torna a sua redondeza uma área mais segura. Em paralelo, essa igreja católica oferece a crianças e jovens escola de ensino fundamental, ginásio de esportes, sala de teatro, educação ambiental, além de refeições aos mais pobres e acesso a roupas e brinquedos usados.

"A ideia é manter a família, especialmente as mães solteiras, também envolvida no ensino dos filhos. Cerca de 60% das crianças aqui educadas vão para o ensino médio", afirmou Molingham.

 

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