Camelos e Estado Islâmico

O contexto no qual os países árabes e muçulmanos levam suas vidas vai influenciar na derrota ou não de grupos terroristas

Thomas L. Friedman, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 06h37

Nesta quinta-feira, 19, falarei dos ataques de Paris, mas antes, quero contar duas histórias, caso vocês não as conheçam: o primeiro filhote gerado por uma camela clonada nasceu num centro de pesquisa em Dubai, e uma start-up (empresa emergente) local de táxis lançou o Uber no mundo árabe. Poderão pensar que clonagem de camelos e táxis nada têm a ver com Paris, mas na realidade têm.

Um jornal local, The National, noticiou que o dr. Ali Ridha al-Hashimi, diretor do Centro de Biotecnologia da Reprodução de Dubai, informou “que Injaz, a primeira camela clonada do mundo, deu à luz, no dia 2, uma cria de sexo feminino, saudável. Injaz, que significa ‘realização’ em árabe, foi clonada em 2009 de células do ovário de uma camela morta. Quando a gravidez foi revelada, o diretor científico do centro, dr. Nisar Wani, disse: “Isso provará que camelas clonadas são férteis e podem se reproduzir como as geradas de maneira natural”.

Na semana passada, uma startup local de serviços de táxi, Careem.com, conseguiu mais US$ 60 milhões para financiar o ingresso do Uber no mundo árabe, usando tecnologia que permite reservar veículos por meio de aplicativo – ideal para a Arábia Saudita, onde as mulheres não podem dirigir e precisam de motorista.

Portanto, 1.600 quilômetros ao sul do emergente Estado Islâmico no Iraque e na Síria – onde jihadistas usam a tecnologia para espalhar a subversão – outro grupo de muçulmanos (e não muçulmanos) em outro país árabe está subvertendo o mundo dos camelos e dos táxis.

Qual é a mensagem? O contexto no qual árabes e muçulmanos levam sua vida é muito importante. Em outros países, eles tinham apenas duas opões: o punho de ferro dos generais, como o presidente Abdel Fatah al-Sisi, do Egito, ou a loucura do EI, que diz que o único caminho para avançar é fazer o mundo árabe-muçulmano retroceder.

Felizmente, há uma terceira via: as autocracias, monarquias e algumas frágeis democracias que investiram em seu povo e criaram ilhas de decência – Tunísia, Jordânia, Líbano, Curdistão, Kuwait, Marrocos e os Emirados Árabes – onde jovens árabes e muçulmanos podem usar seu potencial e conquistar sua dignidade subvertendo o mundo natural dos camelos e os táxis – e não Paris e Beirute.

Para mim, a grande pergunta estratégica no Iraque e na Síria é: o que seria necessário para arrancar o EI pela raiz, e criar uma ilha sunita de decência em seu lugar? Em primeiro lugar, impõe-se uma avaliação honesta das dimensões deste desafio.

Há 60 anos, os ditadores asiáticos diziam ao povo: “Vou tirar sua liberdade, mas lhe dar a melhor educação, uma economia voltada para a exportação e a infraestrutura que o dinheiro puder comprar – e, daqui a meio século, vocês construirão uma classe média que gradualmente recuperará sua liberdade”. No mundo árabe, há 60 anos, os ditadores diziam ao povo: “Vou tirar sua liberdade e dar-lhe o conflito árabe-israelense, um objeto brilhante para distrair sua atenção da minha corrupção”.

Esta diferença, 60 anos depois, produziu o milagre econômico asiático e alimentou a desordem da civilização árabe no Iêmen, Líbia, Síria e Iraque.

Isto posto, creio que a política externa americana, neste campo, deveria se orientar da seguinte maneira: onde há desordem, ajudar a criar a ordem, pois sem ela nada de bom poderá acontecer. Prefiro Sisi à Irmandade Muçulmana. Mas onde existe ordem, será preciso insistir para que ela se torne mais decente e progressista. É aí que Sisi falha: sua preocupação é apenas a ordem pela ordem, sem um sentido positivo. Onde existe uma ordem decente, deveria encorajá-los a tornar-se mais aberta e constitucional. E onde há ordem constitucional ela terá de ser protegida.

Os terroristas do EI são espertos e perigosos. Eu seria favorável a intensificar os bombardeios e as operações especiais para enfraquecê-los mais e para contê-los. Mas antes de irmos mais além, precisamos enfrentar o seguinte fato: para derrotar os sunitas maus do EI de maneira definitiva serão necessários bons sunitas para criar uma ilha de decência. E neste momento, encontrar e fortalecer os bons sunitas que não pertencem ao EI é a segunda prioridade dos vizinhos.

A Turquia está mais preocupada em derrotar os curdos; a Arábia Saudita e aliados do Golfo, em derrotar o Irã e seus prepostos no Iraque, Iêmen e Síria; o Irã está mais preocupado em proteger os xiitas no Iraque e na Síria do que em criar um espaço para os sunitas decentes poderem prosperar; enquanto isso, muitos ativistas sunitas que não pertencem ao EI continuam islamistas – e não irão embora. Como será possível tecer um tapete decente com estes fios?

Não sei – e enquanto isso, eu tomaria cuidado para não ir muito além do que já estamos fazendo. Paris pode ser totalmente diferente hoje. O Oriente Médio não é. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.