Cameron apresenta contrato de coalizão

Conservador oficializa termos da aliança política com Nick Clegg, líder do Partido Liberal, em parceria inédita na Grã-Bretanha nos últimos 70 anos

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2010 | 00h00

A Grã-Bretanha foi apresentada ontem às diretrizes do governo de coalizão que conservadores e liberais pretendem adotar nos próximos cinco anos. Depois de seis dias de negociações, o novo premiê, o conservador David Cameron, e o vice-premiê, o liberal Nick Clegg, oficializaram os termos da aliança política (inédita nos últimos 70 anos) do novo governo.

Em um documento de sete páginas, o contrato de coalizão contempla bandeiras dos dois partidos, como um corte orçamentário de £ 6 bilhões (cerca de US$ 9 bilhões), uma lei regulamentando os bônus no sistema financeiro, a convocação de um referendo sobre o sistema eleitoral e um freio na integração com a União Europeia.

A plataforma conjunta foi divulgada minutos após a primeira entrevista coletiva de Cameron e Clegg em Downing Street. Em clima de descontração e integração, os dois líderes trocaram elogios e fizeram brincadeiras.

Questionados sobre as chances de a aliança sobreviver por um longo tempo, ambos ressaltaram o bom entendimento inicial, mesmo com as diferenças das plataformas políticas.

Os liberais terão cinco ministros. Clegg terá um gabinete próximo ao do premiê e será responsável pela reforma política. "Este governo vai durar. Não porque será fácil, mas porque nós estamos unidos em torno de propósitos comuns", garantiu, "Não estamos só anunciando novos ministros; estamos anunciando novas políticas."

Pilares. Ao apresentar o programa de governo, Cameron enfatizou seus três pilares: liberdade, justiça e responsabilidade. Na área econômica, os cortes orçamentários de £ 6 bilhões em 2010 já estavam previstos no programa de governo conservador, bem como a nova legislação para "enfrentar os bônus inaceitáveis no setor financeiro" e a revisão das idades de aposentadoria.

No plano político interno, foi Cameron quem teve de ceder a Clegg, ao aceitar convocar um plebiscito sobre uma reforma eleitoral. A tendência é que seja adotado o sistema de voto alternativo, no qual o eleitor elenca os candidatos em ordem de preferência. Segundo cientistas políticos, o mecanismo tende a aumentar a representatividade de pequenos e médios partidos no Parlamento, a maior bandeira do Partido Liberal.

Já na política externa, a surpresa foi o tom mais ameno em relação à integração da Grã-Bretanha com a União Europeia.

O diplomata eurocético William Hague foi confirmado como chanceler, e sua atitude será marcada pela resistência a qualquer nova exigência de transferência de poder de Londres para Bruxelas - referendos terão de ser convocados para tais decisões. No entanto, nem Cameron, nem Hague enfatizaram ontem a ideia de recuperar responsabilidades já outorgadas ao bloco econômico, uma clara influência de Clegg, um pró-Europa convicto.

Apesar da interação inicial, especialistas ainda têm dúvidas sobre a viabilidade da nova coalizão no longo prazo. "Conservadores são ideológica e programaticamente bastante distantes dos liberais", disse Jonathan Hopkin, cientista político da London School of Economics.

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