Cameron é acusado de fazer 'campanha do medo' na Escócia

Cameron é acusado de fazer 'campanha do medo' na Escócia

Premiê britânico fala a empresários escoceses sobre risco de inflação caso separatistas vençam plebiscito

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2014 | 02h02

Grandes empresas da Escócia, incluindo cinco dos maiores bancos da Grã-Bretanha, anunciaram ontem planos de se mudar para a Inglaterra caso os independentistas ganhem o plebiscito do dia 18. A ameaça provocou um escândalo envolvendo o premiê britânico, David Cameron, acusado de articular uma campanha de medo com o apoio de empresários.

As ameaças começaram na semana passada, mas se intensificaram depois da divulgação de um relatório interno do Royal Bank of Scotland (RBS), o maior do país, segundo o qual a instituição prepara sua transferência para Londres. Outras quatro instituições financeiras - Tesco Bank, TSB, Lloyds e Clydesdale Bank - confirmaram que também têm planos de se mudar na hipótese de vitória dos separatistas.

Ontem, a direção do RBS - banco do qual o governo britânico detém 80% das ações - confirmou que a transferência deve ocorrer. "O voto sobre a independência é uma questão do povo escocês. A Escócia foi a casa do RBS desde 1727", lembrou a instituição em nota na qual garantiu que manteria parte das operações no país.

Rumores de evasão de empresários também envolveram o governo britânico. Segundo reportagem da BBC, Cameron tem se encontrado com donos de supermercados escoceses com o objetivo de alertá-los para o risco de inflação. Apesar da denúncia, a própria emissora indicou que o imposto pago pelos contribuintes escoceses para financiar o serviço público de TV pode dobrar.

Em defesa da campanha contra o separatismo, o secretário-chefe do Tesouro britânico, Danny Alexander, reforçou as ameaças sobre a fuga de empresas, inflação em alta e perda de empregos na Escócia caso a independência vença. "Em curto prazo, empregos e impostos seriam perdidos. Mas, no longo prazo, o centro de gravidade das decisões no setor financeiro da Escócia mudaria para um país estrangeiro", advertiu Alexander.

O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, que também é coordenador da campanha separatista, acusou o governo Cameron de articular uma ofensiva de líderes empresariais para assustar a opinião pública escocesa. De acordo com o instituto YouGov, a estratégia vem surtindo efeito. Uma nova sondagem divulgada ontem indicou que 52% votariam contra a separação e 48%, a favor, um empate técnico. A tendência é invertida em relação à pesquisa de domingo, quando os independentistas estavam à frente.

Até ontem, segundo a Comissão Eleitoral, 4,2 milhões de eleitores - ou 97% dos jovens e adultos autorizados a votar - se inscreveram nas seções eleitorais para participar do plebiscito. Parte da mobilização tem origem na indignação da população com o comportamento da elite política de Londres. "Agora, Cameron está colocando pressão nos donos de supermercados para que digam que os preços vão subir", reclamou Robert Thomson, de Edimburgo, favorável à independência.

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