GEOFF CADDICK/AFP
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Cameron e o problema que ele mesmo criou

Analistas veem danos para o premiê britânico mesmo em caso de vitória de sua campanha pela permanência na União Europeia

Steven Erlanger / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

23 Junho 2016 | 05h00

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, não tem ninguém para culpar a não ser ele mesmo. Em 2013, sitiado por uma cada vez mais assertiva ala anti-União Europeia de seu Partido Conservador, Cameron, para obter uma paz interna provisória antes da eleição geral de 2015, fez uma promessa: se reeleito, convocaria um referendo para decidir se o Reino Unido continuaria membro do bloco.

Mas, o que então parecia uma jogada de risco relativamente baixo para resolver um problema político de curto prazo, transformou-se num caso que pode abalar seriamente a economia britânica, influenciar os rumos do país por gerações – e determinar o destino político de Cameron.

Enquanto a nação se preparava para votar nesta quinta-feira, o mercado de apostas indicava que os eleitores optarão pela permanência na UE, mas pesquisas sugeriam que era cedo para garantir isso.

Na terça-feira, Cameron advertiu que a decisão de sair seria uma escolha “irreversível”. Apelando para os eleitores mais velhos, muitos dos quais tendem para a saída da UE, Cameron pediu que pensassem sobre qual será seu legado para a próxima geração. “Acima de tudo, trata-se de nossa economia”, disse ele.

Cameron tem fama de sortudo, tendo se safado no último minuto de vários outros apertos. Mas, nesse caso, para muitos analistas, os danos serão grandes mesmo que vença, com rivais à espreita para ocupar seu lugar e conservadores mais divididos que nunca.

Se perder, será pressionado a renunciar, e mesmo que se segure por algum tempo dos quatro anos que restam a seu governo, qualquer legado substantivo que possa deixar será perdido no que muitos consideram uma aposta desnecessária.

Martin Wolf, colunista de economia do Financial Times, escreveu que “esse referendo é, indiscutivelmente, o mais irresponsável ato de um governo britânico que já vi na vida”. Resumindo a opinião quase unânime de economistas de que a saída britânica da UE – “Brexit” – será acompanhada de um grande choque e perda permanente de crescimento, Wolf concluiu: “O resultado poderá ser devastador”.

Cameron argumenta que o referendo tinha de ser convocado para resolver o corrosivo debate Grã-Bretanha/UE. Como no referendo sobre a independência da Escócia, em 2014, essa votação representa “uma grande festa democrática” sobre um tema muito difícil que divide a sociedade, disse ele.

Mas, se no referendo escocês houve denúncias de abuso e violência pontuais, mantendo-se a União, o de hoje chega envenenado, com os próprios colegas de gabinete de Cameron dizendo que ele abalou a confiança na política, é mentiroso e age como se esperasse formar um novo governo.

Foi uma campanha marcada por reivindicações que nada têm a ver com os fatos, por xenofobia, racismo, nativismo e islamofobia proclamados em altos tons. Foi ainda marcada pelo assassinato da deputada trabalhista, Jo Cox, que defendia a permanência na UE.

Parte desse azedume aflorou num acalorado debate na televisão no qual o novo prefeito de Londres, Sadiq Khan, partidário da permanência, disse que a campanha de seus opositores “não projetou medo, mas ódio, quando a imigração entrava em pauta”.

Há os que entendem que Cameron tinha de convocar o referendo ante a divisão no Partido Conservador e a ascensão do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) e seu líder, Nigel Farage. O Ukip estava tirando votos dos conservadores com a argumentação de que o Reino Unido só conseguirá limitar a imigração e controlar fronteiras se deixar a UE.

O primeiro-ministro, que vem repetidamente prometendo baixar a imigração para “dezenas de milhares”, nunca deu uma resposta convincente ao problema migratório.

Para pacificar o crescente número de conservadores anti-UE, manter sua posição de liderança e solapar o Ukip, Cameron havia prometido fazer esse referendo se vencesse a eleição de 2015. Charles Lewington, ex-diretor de comunicações do Partido Conservador, disse que tinha de haver um referendo. 

Mas Tony Travers, professor de política na London School of Economics, não tem tanta certeza. “Cameron não precisava convocar”, disse o professor. Como Harold Wilson, primeiro-ministro trabalhista que organizou um referendo sobre a UE em 1975, Cameron começou a promover o seu como exercício de “disciplina partidária interna”. A convocação, afirmou, se deveu “mais a razões partidárias que de interesse nacional”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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