KIRSTY WIGGLESWORTH | NYT
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Gilles Lapouge
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Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 05h47

O problema da União Europeia, sua deficiência, é que ela é numerosa. O ideal seria abrigar um único país, mas, então, por que se chamaria União Europeia? Numa circunstância extrema, poderíamos aceitar um conjunto de duas ou três nações, se possível vizinhas, com a mesma cultura e economias similares. Mas vamos ser generosos: ela poderia agrupar até cinco ou seis países.

Mas reunir sob a mesma bandeira 28 países, como hoje, alguns no círculo polar, outros às margens do tépido Mediterrâneo, alguns opulentos, outros extremamente pobres, é obrigar os mecânicos da Europa a correr de manhã à noite, com suas pequenas caixas de ferramentas, para consertar um vazamento de água ao norte, um blecaute de eletricidade a oeste, uma explosão a leste ou qualquer outra coisa ao sul.

É o que ocorre hoje, mas todos os dias são iguais. O que faz o pobre Jean-Claude Juncker, o simpático chefe da Comissão de Bruxelas? Ele se inquieta com Portugal, cujo governo conservador está acabado – o que aflige Bruxelas, que até tentou manter os conservadores em Lisboa embora a esquerda tenha vencido as recentes eleições.

Vejamos a Espanha. Que tristeza. A Catalunha proclama que em 2017 será independente. O governo de Madri reage energicamente com um “Não!”. Ele não deixará a Catalunha escapar. Motim à vista.

E a leste? Na Croácia, que pertence à UE desde 2013, vimos a vitória nas eleições legislativas do fim de semana de Tomislav Karamarko, da direita radical, extremamente nacionalista, que se opõe ao casamento gay e é um vigoroso defensor dos valores cristãos, de modo que a previsão é de algumas dificuldades com os migrantes muçulmanos que invadem os Bálcãs.

A União Europeia já tem um grande abacaxi nas mãos, que é o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, que detesta o bloco. Um segundo problema surge, agora, na Croácia.

Bruxelas depois lança seu olhar sobre a Grécia, que a ocupou tanto nos últimos anos e, felizmente, provoca menos barulho atualmente, desde que entrou nos trilhos sob os cuidados de Bruxelas e da Alemanha da chanceler Angela Merkel.

Sim, sem dúvida, o bondoso Jean-Claude Juncker, sonha com a Grécia, nossa glória. Salvamos a Grécia!

Mas apostamos que ele pensa no assunto sem se deter por muito tempo, pois sabe, como qualquer banqueiro europeu, que a Grécia não está, absolutamente, curada, e o explosivo e inconsequente Alexis Tsipras logo mais enfrentará “um amanhã que não será de nenhum modo melhor”, enquanto os credores continuam fervilhando sobre o corpo massacrado da Grécia.

Futuro. E depois? Um olhar para o norte. Grã-Bretanha, por exemplo? Uma boa ideia. O primeiro-ministro conservador David Cameron prepara seu país para um referendo que trata justamente da permanência do país na União Europeia. Ele acabou de formular, por meio de seu ministro das Finanças, George Osborne, a lista de demandas de seu país que Bruxelas deve acatar e, caso contrário, Downing Street não batalhará em favor da União Europeia.

E quais são? Bruxelas não deve mais ambicionar uma Europa cada vez mais integrada, a União Europeia deve aceitar que os países que não são membros da zona do euro (caso da Grã-Bretanha) tenham tratamento igual ao oferecido aos países que fazem parte da zona do euro. Juncker deve permitir também que os países que não pertencem à zona do euro não sejam obrigados a apoiar nenhum membro da zona, como foi o caso da Grécia.

Bruxelas já expressou seu descontentamento. Além disso, as autoridades da UE estão convencidas de que Cameron não disse tudo. Ele mantém outras exigências na manga e as fará no momento oportuno. Por outro lado, o primeiro-ministro britânico é enervante. Menciona constantemente esse referendo, mas jamais revelou se ele será realmente realizado em 2016 ou 2017.

Tudo se passa como se Cameron estivesse em vias de envolver Bruxelas numa longa partida de pôquer com blefes.

E se a Grã-Bretanha se afastar definitivamente, quais serão os efeitos devastadores para a União Europeia, de repente, sem uma das suas peças mais brilhantes? E que festa para todos os populistas da Europa, a começar por Marine Le Pen. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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