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Cameron inicia sondagens

Algumas horas depois de a rainha Elizabeth anunciar que a Grã-Bretanha questionaria aos britânicos, por referendo, se eles querem ou não permanecer na União Europeia (UE), o premiê David Cameron jantou ontem no Palácio do Eliseu com o presidente francês, François Hollande. Ele também viajará a Varsóvia e a Berlim.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2015 | 02h06

Cameron quer "medir o pulso" de seus colegas europeus. A aposta é importante. Conforme seus aliados aceitem ou não as "exigências" de Londres, o premiê fará campanha pelo "sim" ou pelo "não" no referendo marcado para o fim de 2017, mas que na verdade deve ocorrer bem antes, talvez em meados de 2016.

Nesta oportunidade, poderemos medir o quanto a construção europeia é frágil. Essa UE vive tremendo. Basta um de seus membros espirrar para todos acreditarem que ela está gripada e vai morrer disso. Ela mesma se cerca de muitas precauções como se fosse um vaso de cristal prestes a se quebrar ao primeiro sopro.

A expressão preferida dos chefes europeus é "Não devemos abrir a caixa de Pandora!" Por isso, embora funcione mal, como uma velha locomotiva de antes da Guerra de Secessão, a UE não consegue se reformar. Ela tem muito medo de que uma verdadeira reforma logo tome o aspecto de uma enfermidade letal. Além disso, por não se reavaliar, ela está perpetuamente em conserto. A todo momento, está na oficina cercada por uma multidão de mecânicos que mudam um pedal de freio, uma roda, um volante, por não fazer o reparo indispensável do conjunto.

Isso permite compreender o motivo pelo qual o anúncio do referendo britânico fez soprar um vento de pânico sobre as capitais europeias. Elas temem, primeiro de tudo, um efeito de contágio. Dizem que outros países contaminados pelo micróbio britânico também poderão recorrer a um referendo sobre a Europa.

Outro perigo: é provável que haja um aprofundamento do "racha" quase ideológico que opõe uma parte da Europa a outra. Para os membros fundadores, a UE não deve se reduzir a um simples acordo comercial. Ela deve edificar uma entidade política. Já os britânicos querem simplesmente fazer bons negócios. De um lado, temos a concepção britânica (um vasto espaço de livre-comércio). Do outro, uma visão geopolítica, a criação de um novo conjunto tendendo ao supranacionalismo.

É possível que a rainha Elizabeth, quando colocar sua coroa de diamantes para ir ao Palácio de Westminster, tenha, na verdade, acelerado a formação de uma Europa com duas velocidades. De um lado, uma Europa navegando para mais integração. Do outro, uma Europa se contentando com os benefícios de um grande mercado único.

Essas duas Europas já existem. É sabido que a maioria dos países europeus pertence ao que chamamos de zona do euro, dotada de uma moeda comum. No entanto, alguns outros países, mesmo pertencendo à UE, não quiseram sacrificar a própria moeda. Eles rejeitaram participar da zona do euro. À frente desses países está a Grã-Bretanha.

Danos e benefícios. É aí que corre a linha de divisão entre as duas Europas. Os países que abandonaram sua moeda para adotar o euro sabem que estão irremediavelmente condenados a uma união cada vez mais estreita. Ao contrário, os que salvaram sua moeda conservam a totalidade de suas prerrogativas políticas e de sua soberania. Portanto, a Europa de duas velocidades já está, provavelmente, inscrita no processo em que se envolveu a rainha Elizabeth.

Resta uma terceira hipótese, é claro, a de que os britânicos, durante o referendo de Cameron, decidam sair da Europa. Neste caso, isso seria o anúncio de violentos transtornos dos quais ninguém saberia medir hoje os danos e os benefícios. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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