Cameron 'jogou roleta russa' com a UE, acusa ex-comissário europeu

Em entrevista ao Estado, ex-comissário europeu não acredita que Brexit possa provocar um 'efeito dominó' no restante da Europa, mas admite que líderes pró-UE terão que 'lutar'

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2016 | 16h09

GENEBRA – David Cameron, o primeiro-ministro britânico, "jogou roleta russa" com a União Europeia (UE) em razão de uma disputa interna de poder. A acusação é de Pascal Lamy, um dos comissários europeus de maior influência nos últimos 20 anos e ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC). 

Em entrevista ao Estado, o francês afirma que não acredita que partidos extremistas consigam replicar a realização de votações em outros países. Mas admite que, se isso ocorrer, líderes pró-europeus terão que "lutar". 

Lamy foi uma espécie de super-ministro do Comércio do bloco europeu entre 1999 e 2004. O francês ainda foi chefe de gabinete do presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, e serviu no gabinete do primeiro-ministro em Paris, Pierre Mauroy. Entre 2005 e 2013, ele ainda comandou a OMC, em um dos momentos mais delicados da organização e em uma tentativa de superar um impasse entre países emergentes e economias ricas. Eis os principais trechos da entrevista: 

Como o sr. recebeu a notícia de que o grupo que pedia a permanência do Reino Unido na UE - o Remain - havia perdido a votação?

Com grande tristeza e muito bravo com David Cameron, que jogou roleta russa com a Europa para ganhar um jogo de poder dentro de seu partido. 

Qual é a importância histórica dessa decisão para o projeto Europeu?

Só o futuro dirá, se o Brexit ocorrer no final do dia. Ele vai enfraquecer a UE ao fazer com que ela perca parte de seu corpo. Outras partes, porém, podem se fortalecer. 

Como se chegou ao ponto de que o projeto de integração passou a ser visto como uma ameaça e não como um dos projetos de paz de maior êxito da história?

A relação dos britânicos com a UE foi sempre específica. Um pé dentro, um pé fora. Há 40 anos, eles entraram em um trem que estava em marcha já por 20 anos. Agora, eles querem desembarcar. O povo britânico decidiu que eles conseguem nadar sozinhos no oceano da globalização. Isso não é o caso para nenhum outro dos 27 membros da UE, onde as pessoas não querem sair, mesmo se têm dificuldades em chegar a um acordo sobre como administrar a loja. 

O sr. teme que essa decisão cause um efeito dominó, com outros grupos em outros países pedindo o mesmo tipo de consulta popular como ocorreu no Brexit? 

Não, precisamente por essa razão. Alguns movimentos extremistas na França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Dinamarca vão tentar forçar um referendo para definir se seus países ficam ou saem da UE, assim como o Ukip fez no Reino Unido. Eu duvido que sejam apoiados pela maioria. Se nós, pró-europeus, tivermos que lutar essa batalha, vamos lutar. 

O sr. acredita que existe um risco de a Europa perder relevância?

Pelo contrário. Acho que se a União Europeia não tivesse sido inventada para se recuperar da guerra mundial feita pelos europeus, ela deveria ser inventada hoje para unir países europeus que compartilham valores similares: menor tolerância às desigualdades, mais tolerância à diversidade que em qualquer outro lugar do mundo e uma economia social de mercado. 

Em termos comerciais, qual pode ser o impacto do Brexit?

Difícil dizer, já que o Reino Unido "fora" terá que decidir qual regime comercial ele quer em termos multilaterais antes de negociar qualquer regime preferencial "super", "semi" ou "básico" com a UE. A campanha do pró-Brexit tem dado sinais bem diferentes, de tarifa zero ao protecionismo, e medidas anti-imigração.

O sr. vê uma Europa mais protecionista surgindo depois da saída do Reino Unido?

Não acredito. A política comercial europeia tem sempre se movido na direção de mais abertura comercial. Os pedidos de mais protecionismo vêm dos extremos do espectro político. 

E as negociações entre o Mercosul e a UE? Elas podem uma vez mais ser suspensas ou adiadas?

Não acredito que elas sejam influenciadas de uma forma ou de outra pelo Brexit, se é que ele vai ocorrer. Essas negociações já duram 20 anos. 

Alguns apontam que o resultado do Brexit foi uma consequência de uma UE que era liberal demais e não suficientemente social. Portanto, os perdedores do sistema votaram por sair. Bruxelas deveria considerar esse aspecto também?

Essa é uma das interpretações do Brexit entre muitas outras. Os resultados foram muito diferentes de acordo com a idade, geografia, situação social e nível de educação. É verdade que as desigualdades aumentaram em alguns países europeus antes e durante a crise e que as pessoas mais pobres podem se sentir com raiva, frustradas e ameaçados pelo capitalismo de mercado. Mas a interpretação de elite contra o povo não se verifica ao se avaliar os números da votação. Os eleitores mais multiculturais, onde muitos pobres vivem, votaram pelo "Remain" (ficar). A legislação europeia frequentemente é mais "pró-trabalhadores" que os governos britânicos queriam, o que explica o pedido deles de já ficar de fora de alguns assuntos sociais. Eu tenho dúvidas se o Reino Unido "fora" será socialmente mais justo. Infelizmente, os perdedores podem perder ainda mais. 

Veja abaixo: Londrinos protestam contra o Brexit

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