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Caminhos de Sánchez

Se Sánchez não formar uma coalizão, a Espanha pode se perder em caminhos perigosos

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 05h00

Eles fazem tudo ao contrário. Espanha e Portugal, enfim, toda a Península Ibérica. A eleição espanhola deixa isto claro. No restante da Europa, partidos de direita e de extrema direita assumem ou rondam o poder, mas os dois Estados ibéricos continuam fiéis aos partidos tradicionais e à esquerda.

Portugal empreende com sucesso há alguns meses uma aventura social-democrata. Na Espanha, o Partido Socialista, de Pedro Sánchez, foi o grande vencedor. Terá 123 dos 350 deputados no Parlamento. Todos os seus rivais estagnaram ou desmoronaram. O Partido Popular (PP), da direita clássica, que tinha 137 deputados com Mariano Rajoy, não terá agora mais do que 66, com o jovem Pablo Casado. O Ciudadanos, de centro-direita, vai se contentar com 57 cadeiras. E o Podemos, da esquerda radical, terá 42.

E o novo partido Vox, que muitos especialistas prenunciavam uma ascensão fulgurante? Não lhe faltavam trunfos: virulência, nostalgia dos tempos de Franco, juventude. E os ventos “da direita” que sopram por toda a Europa deveriam inflar suas velas. O Vox obteve 10% dos votos, um resultado honroso, mas que não vai lhe garantir mais do que 24 deputados. Um resultado mediano, mas não o fenômeno devastador que seus chefes esperavam e longe de se tornar uma força de governo – como a Liga, de Matteo Salvini, na Itália.

Assim, ao grande desejo de renovação que toma conta da Europa, a Espanha resiste. E isto se deve ao talento e à tenacidade de Sánchez, um homem que jamais se deu por vencido, e à sua rigidez. Se em outros países europeus os socialistas tentam evitar o desastre se camuflando como políticos de centro, como foi o caso de François Hollande, em 2015, Sánchez não cedeu. 

Seja na acolhida dos imigrantes, nos problemas da sociedade ou da economia, ele jamais esqueceu que é um socialista. Excepcionalmente, a fidelidade a si mesmo, o rigor moral e a coragem venceram os interesses políticos e foram recompensados.

Mas, se Sánchez ganhou uma batalha, não venceu a guerra. O mais difícil (a formação de um governo) está à sua frente. Com seus 123 deputados, ele não tem maioria. Ou seja, assumindo o poder, ele será derrubado na primeira corrente de ar. Portanto, ele precisa obrigatoriamente encontrar aliados se deseja construir um poder estável.

Vários cenários estão a sua escolha. O mais lógico seria formar uma aliança com o partido reformista Ciudadanos, de Albert Rivera. A vantagem disto seria arrancar a Espanha do duelo direita-esquerda que paralisa o país há anos. Aparentemente, Rivera prefere o PP, que sofreu um duro revés. Então? O Ciudadanos pretende se associar com os sobreviventes de um exército derrotado? Estranho.

Resta a Sánchez a hipótese inversa: associar-se com as forças da esquerda. Firmar um acordo com o Podemos (esquerda radical). Mas o Podemos, no futuro Parlamento, só terá 42 deputados. Não será suficiente para dar uma maioria confiável. Neste caso, seria necessário atrair pequenos partidos regionais, entre eles os catalães, o que significaria dar a eles um poder infernal. 

Por exemplo, para impulsionar suas reivindicações regionalistas, os catalães poderão, a qualquer momento, colocar Sánchez em minoria. Mais uma vez, a terrível questão catalã estará no centro da política e poderá paralisar o funcionamento do Estado. 

Entretanto, existe a esperança de que a razão vença, porque o que está em jogo é crucial. Se Sánchez não conseguir formar uma coalizão, haverá um bloqueio institucional que pode levar a Espanha a caminhos perigosos. / Tradução de Terezinha Martino 

* É correspondente em Paris

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