Camisinha pode ser aceita em alguns casos, diz papa

Adotando posição sem precedente, Bento XVI qualifica uso de preservativo de 'primeiro ato de responsabilidade' em relações que envolvam prostituição

, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

O papa Bento XVI admitiu, em declarações para um livro do escritor alemão Peter Seewald, que o uso da camisinha pode ser justificável em alguns casos e clama por uma "humanização da sexualidade" como forma mais eficaz de combate à aids.

O novo livro de Seewald, A luz do mundo. O papa, a Igreja e os sinais dos tempos. Uma conversa com o Santo Padre Bento XVI (Libreria Editrice Vaticana, ? 19,50), reúne várias entrevistas com o pontífice. A obra será lançada nas livrarias no dia 23, mas o jornal católico L"Osservatore Romano antecipou ontem alguns trechos.

Bento XVI dá como exemplo de uso justificável do preservativo as relações que envolvam prostituição. "É o primeiro ato de responsabilidade para desenvolver novamente o conhecimento do fato de que nem tudo é permitido e não se pode fazer tudo aquilo que se deseja", diz o papa, referindo-se ao caso hipotético de uma prostituta.

A declaração marca a mais significativa mudança de posição da Igreja das últimas décadas em relação ao uso da camisinha, que sempre foi vetado ou desestimulado pelo Vaticano.

Na entrevista, porém, Bento XVI alerta que "concentrar-se somente no preservativo representa banalizar a sexualidade". Para ele, as pessoas não veem mais nela a expressão do amor, mas uma espécie de droga. "Por isso mesmo a luta contra a banalização da sexualidade faz parte de um grande esforço para que ela seja valorizada positivamente e possa exercitar seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidade", afirma.

Christian Weisner, do grupo pró-reforma alemão Nós Somos a Igreja, disse que as declarações de Bento XVI são "surpreendentes e, se for mesmo o caso, todos podem estar felizes pela capacidade do papa de aprender".

No livro de 284 páginas, dividido em três partes - "Os sinais do tempo", "O pontificado" e "Sobre aonde vamos" -, o papa também afirma que não ter sido pego "totalmente" de surpresa pelos escândalos de padres pedófilos, mas reconhece que a dimensão que o caso alcançou lhe causou "um choque enorme". Ele diz ter tomado conhecimento de ocorrências com padres dos EUA e Irlanda quando estava na Congregação para a Doutrina da Fé.

O papa relata que as acusações contra o sacerdócio e contra a própria Igreja foram muito difíceis de suportar, mas que o importante naquele momento era não se distanciar do fato de que o bem existe no âmbito da Igreja, muito além "daquelas coisas terríveis". Bento XVI criticou o trabalho da imprensa na cobertura dos escândalos. "Era evidente que a ação da mídia não era guiada somente pela busca da verdade, mas havia uma satisfação em colocar a Igreja numa situação embaraçosa e, se possível, em desacreditá-la."

Disse ainda que se um papa for considerado "física, psicológica ou espiritualmente incapaz de fazer o seu trabalho", ele deve ter "o direito - em algumas ocasiões, a obrigação - de renunciar". Ele também evocou a formulação do papa João Paulo II sobre a questão da ordenação de mulheres, segundo a qual a Igreja não tem tal poder. Ele afirma que a formação dos 12 apóstolos e seus sucessores, com os bispos e sacerdotes, é uma determinação divina. "Segui-la é uma questão de obediência", alega. / NÍVEA TERUMI, DO "ESTADÃO.COM", COM REUTERS E AP

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