Campanha contra secessão da Escócia chega às urnas com pequena vantagem

Campanha contra secessão da Escócia chega às urnas com pequena vantagem

Nas pesquisas, escoceses que optam pela manutenção do Reino Unido representam 52% dos votos

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h00

Após 307 anos de união, 4,2 milhões de eleitores residentes na Escócia poderão ir às urnas hoje em Edimburgo e no interior do país em um plebiscito histórico que definirá o destino da Grã-Bretanha, sexta maior potência econômica do mundo.

Após dois anos e meio de campanha eleitoral, todos os prognósticos revelados ontem por institutos de pesquisas indicam um empate técnico, mas com ligeira vantagem para o "não" à independência, que teria até 52% das preferências. O "sim" teria até 49%. Em meio à incerteza econômica e política, 500 mil indecisos serão os árbitros da escolha. A média das últimas pesquisas feita ontem mostra diferença de 3,8 pontos porcentuais.

O plebiscito deve ser a maior demonstração democrática da história da Escócia, já que 97% dos eleitores estão inscritos nas seções eleitorais e poderão exercer o direito de votar, facultativo. A expectativa de afluência recorde às urnas se explica pelo acirramento da disputa entre as campanhas "Yes Scotland", independentista, e "Better Together", unionista, nos últimos 20 dias de propaganda.

Ontem, quando motoristas começavam a desfilar pelas ruas com bandeiras azuis e brancas presas a seus veículos, a polícia interveio, pedindo calma aos militantes de ambos os lados por temer confrontos. Forças especiais estão de sobreaviso para garantir a segurança da votação.

Na noite de ontem, em um final de campanha apoteótico, o primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, líder do Partido Nacional Escocês (SNP), fez um discurso na capital no qual exortou os britânicos a respeitar a decisão das urnas. "A escolha é nossa, é nossa oportunidade, é o nosso momento. Todos buscamos mais igualdade, mas também amizade", disse o separatista, garantindo que em caso de vitória do "sim", Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte - os remanescentes da Grã-Bretanha - serão os maiores amigos e aliados da Escócia independente. "Se o voto for contra a independência, peço a todos que aceitem o resultado com dignidade."

Do lado unionista, coube ao ex-premiê britânico Gordon Brown, trabalhista histórico, pronunciar o discurso mais importante do dia para a campanha "Better Together": "Não se trata de medo do desconhecido, mas de riscos que conhecemos". Ele descreveu sua visão de uma Escócia independente: "Um campo minado econômico, no qual problemas podem explodir a qualquer momento, um alçapão econômico do qual nunca vamos poder escapar".

Na noite de ontem, uma série de pesquisas de opinião divulgadas pelos institutos ICM, Panelbase e Ipsos-Mori chegaram a conclusões semelhantes sobre a possibilidade de cada lado, indicando que os unionistas têm mais chance de vencer. Das três pesquisas, duas dão vantagem ao "não" - uma indicou 52% a 48% e outra 51% a 49%. As sondagens variaram apenas em relação ao número de indecisos, que oscilou de 5% a 14%, dependendo do instituto.

Os números indicam empate técnico, pois se situam dentro da margem de erro. A votação é ainda mais imprevisível porque, segundo Mark Diffley, diretor do Ipsos-Mori, a campanha "Yes Scotland" chega ao dia do plebiscito empurrada pela tendência de crescimento verificada nas últimas semanas. "Faltando horas para a abertura das urnas, está claro que o resultado será extremamente apertado", afirmou Diffley.

Os indecisos são o maior fator de instabilidade. Eles são em número suficiente para desequilibrar a votação para qualquer lado. Para o cientista político Daniel Kenealy, diretor adjunto do Departamento de Governança da Universidade de Edimburgo, a indecisão é produto das questões em aberto pela secessão e não respondidas pelas campanhas. "Para muitas questões abertas pelo plebiscito, não há respostas conhecidas. Sobre a relação com a União Europeia e com a Grã-Bretanha ou sobre a situação monetária, por exemplo", enumerou o professor ao Estado. Kenealy, aliás, se dizia indeciso até a manhã de ontem.

O certo, segundo o especialista, é que, ao contrário dos prognósticos iniciais, a decisão da maior parte dos escoceses não será emocional, mas racional, com base na visão de cada um sobre as perspectivas econômicas do país, eventualmente independente. "Não é um debate com base em história ou em orgulho nacionalista do passado. A questão é pragmática e econômica. Por isso, boa parte do eleitorado continua buscando fatos e números para tomar uma posição", explica. As seções eleitorais ficarão abertas das 7 - 3 horas em Brasília - às 23 horas. A estimativa é que os resultados sejam conhecidos amanhã cedo, madrugada no Brasil.

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