Campanha em Phoenix incentiva o voto de latinos

Objetivo é levar mais democratas para Câmara e Senado do Estado e impedir a reeleição do xerife anti-imigrantes Joe Arpaio

FERNANDA SANTOS, PHOENIX , EUA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h00

Na primeira terça-feira de outubro, um grupos de jovens ativistas políticos reuniu-se na rotunda da Assembleia Legislativa do Arizona para uma celebração puramente partidária: a inscrição de quase 35 mil novos votantes latinos, o grupo de mais rápido crescimento da população americana e, em grande parte, fiel às políticas pregadas pelo presidente Barack Obama, defensor do governo como alavanca do crescimento econômico.

No Arizona, o Estado que aprovou a primeira e mais draconiana lei contra imigrantes ilegais nos Estados Unidos, o marco tem um importante valor simbólico, especialmente em ano de eleições tão disputadas. As projeções são de que, em menos de 20 anos, um em cada quatro americanos tenham sangue latino e, em 2050, a população branca, maioria nos dias de hoje, passe a ser minoria. Mas como o voto por aqui é opcional, a mudança demográfica só se traduzirá em poder político no futuro se a participação de latinos em eleições crescer na mesma proporção.

As campanhas eleitorais parecem exércitos em guerra. Tem a batalha pelo voto feminino, a batalha pelo voto cristão, a batalha pelos eleitores que não estão vinculados a nenhum partido político - os chamados "independentes" - e a batalha pelos indecisos. Não há, no entanto, batalha mais imprevisível e mais crucial para o futuro político dos EUA do que a batalha pelo voto latino.

Para os ativistas de Phoenix, o futuro começa agora e eles acreditam ter o incentivo perfeito para motivar o latino que não está inscrito como eleitor a se inscrever: o xerife Joe Arpaio.

Arpaio - ou xerife Joe, como ele prefere ser chamado - é notório por aqui, sinônimo da oposição, aversão e, alguns dizem, racismo dirigidos aos latinos, sejam eles imigrantes ilegais ou não. Ele á adorado por um certo segmento do eleitorado americano, um pessoal mais conservador que acredita que a melhor maneira de resolver o problema da imigração ilegal neste país é deportar imediatamente os imigrantes ilegais que estão por aqui, um número estimado em 11 milhões.

Aos 80 anos, Arpaio está concorrendo à reeleição pela quinta vez e tem mais dinheiro no caixa da sua campanha do que qualquer um dos candidatos ao Congresso americano pelo Arizona. A maior parte das contribuições veio não de doadores locais, mas de outras partes dos EUA.

"Tem gente que me adora, mas também tem gente que gostaria de ver a minha cabeça em uma estaca", disse Arpaio em uma recente entrevista, dias após seu testemunho em um julgamento na corte federal em Phoenix, onde está sendo acusado de violar os direitos civis de latinos por fazer deles o alvo de suas operações policiais. (Ele nega veementemente as acusações.)

Realidade. Apesar de o Partido Democrata ter investido dinheiro e mão de obra para mobilizar o voto latino no Arizona, um Estado que não elege um candidato democrata à presidência desde 1945, os ativistas de Phoenix acreditam que a derrota do Arpaio - e, ao mesmo tempo, a eleição de mais candidatos democratas para a Assembleia Legislativa, que hoje é dominada por republicanos, e, também, ao Senado - é um sonho muito mais possível de se tornar realidade.

Por seis meses, o grupo - formado por estudantes de segundo grau e universitários, e organizado e financiado por líderes sindicais - bateu de porta em porta nos bairros latinos da cidade ou se postou em frente aos supermercados, salões de beleza, parques e centros comunitários que os latinos frequentam, inscrevendo votantes. "Fazemos parte de uma campanha para livrar o Arizona do xerife Arpaio", Daria Ovide, uma das coordenadoras da operação, conhecida como Adiós Arpaio, dizia ao aproximar-se. As visitas continuam mesmo agora que já se encerrou o prazo para a inscrição de novos eleitores, mas o objetivo é outro: convencer quem se registrou a votar.

No Arizona, mais da metade dos eleitores vota por correio, ou seja, eles recebem e preenchem suas cédulas em casa, enviando-as depois ao órgão do governo estadual responsável pela apuração dos votos. Se os novos votantes não têm certeza de como preencher sua cédula, um dos voluntários prontifica-se a ajudá-lo. Se eles não conhecem um ou outro candidato, há sempre alguém disposto a educá-los - de acordo, é claro, com a visão de esquerda compartilhada por todos os integrantes do grupo.

Historicamente, a proporção de latinos que participam de eleições presidenciais nos EUA é mais baixa do que a proporção de eleitores brancos, ou mesmo negros. Em 2010, em todo o país, havia 21 milhões de latinos maiores de 18 anos, idade mínima para votar por aqui. Destes, 6,3 milhões não estavam inscritos para votar e 10,8 milhões não votaram, de acordo com uma pesquisa do Advancement Project, uma organização que luta pela proteção dos direitos civis das minorias étnicas americanas.

Frustração. No Arizona nas últimas eleições presidenciais, em 2008, latinos, que constituem aproximadamente 20% dos eleitores, corresponderam a apenas 8% do voto, segundo os resultados de pesquisas de boca de urna.

"É sempre a mesma frustração: os latinos inscrevem-se para votar, mas, na última hora, muitos deles não votam", disse Tara Blanc, professora da ciências políticas na Universidade Estadual do Arizona.

Blanc, que vem pesquisando há anos a evolução do voto latino nos Estados Unidos, disse que vários fatores influenciam a sua participação em eleições, entre eles idade - o eleitorado latino é mais jovem do que o eleitorado em geral - e de baixa renda - e eleitores mais pobres tendem a votar em menor número.

Neste ano, no Arizona, as candidaturas de Arpaio e a de Richard H. Carmona, um porto-riquenho com um currículo de super herói, ao Senado podem alterar profundamente o resultado. Carmona, um veterano condecorado da Guerra do Vietnã que serviu como cirurgião-geral dos EUA durante o governo de George W. Bush, foi escolhido a dedo pelo presidente Obama para concorrer ao cargo. Apesar de ele ser um democrata postulando-se a um posto ocupado por republicanos desde 1995, as pesquisas de opinião indicam que ele tem boas chances de ganhar.

"A capacidade não de influenciar as eleições presidenciais, mas de influenciar eleições locais: esse é o impacto que o voto latino pode ter no Arizona em 2012," explicou Blanc.

Em Phoenix, os ativistas estão confiantes. Numa tarde recente, vários deles visitaram de surpresa o escritório do xerife Arpaio, trazendo caixas de papelão e uma clara mensagem: Prepare-se para a mudança.

"Ele vai precisar dessas caixas," disse Daria, a coordenadora do grupo. "Logo, logo, vamos botá-lo para fora com nosso voto."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.