Campanha faz franceses defenderem abertamente o extremismo de direita

No final da manhã de quarta-feira, Philippe M., de 49 anos, funcionário da direção de uma multinacional, decidiu "sair do armário". Filho de moradores do interior da França identificados com a direita moderada (gaullista), ele votou em segredo desde os 18 anos no empresário Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional (FN), o maior partido de extrema direita do país.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h03

Em 2012, satisfeito com os 6,3 milhões de votos para Marine Le Pen no primeiro turno das eleições presidenciais, ele concluiu que era hora de romper o silêncio e admitir as razões de sua adesão - ainda que pedindo ao Estado a preservação de seu sobrenome: "Sou por uma França soberana, que saiba controlar seu fluxo migratório", argumentou.

Desde as 20 horas de domingo passado, quando os principais institutos de pesquisas apontaram os resultados das sondagens de boca de urna, indicando que a FN e Marine teriam uma votação recorde, chegando a 17,9% do eleitorado, a extrema direita perdeu seu complexo na França. Assediados pelos dois finalistas, o atual presidente, Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP, centro-direita), e seu oponente do Partido Socialista (PS), François Hollande, os eleitores da extrema direita descobriram o poder de barganha que têm.

Philippe, por exemplo, diz querer a saída da França da União Europeia, o retorno ao franco e o abandono do euro, a expulsão em massa de imigrantes ilegais e a redução drástica dos estrangeiros em situação legal.

A mudança de posição de Sarkozy e Hollande em relação a esse eleitorado é escancarada. O chefe de Estado passou a repetir slogans da FN em seus comícios, enquanto Hollande fez uma guinada à direita propondo o controle estrito da entrada de imigrantes em busca de trabalho. Essa mudança, claro, é motivada pela proximidade do segundo turno, domingo que vem.

"A marca de 2012 prova que a de 2007, de 10%, foi atípica e não se tratava do fim da FN, como se chegou a afirmar", explica Jean-Yves Camus, especialista em extrema direita do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, de Paris. Segundo ele, a tentativa de Marine de "desdemonizar" o partido, afastando-o das teses antissemitas de seu pai, não significam que a agremiação tenha deixado de ser o que é: um partido de raízes xenofóbicas.

Esse avanço só é possível porque um eleitorado antes avesso à figura de Jean-Marie agora se mostra seduzido pela juventude e pela "modernidade" de Marine. Pesquisas indicam que a base dos franceses que aderem às teses do partido não é evidentemente apenas de skinheads. Ele inclui também trabalhadores pouco politizados, de baixo nível educacional e empregados em postos precários. O paradoxal é que esse eleitorado extremista, de 25% a 30% em pequenas cidades, vive em geral no interior do país por falta de condições de morar em grandes municípios. Assim, ele não está em contato com a insegurança pública ou com a imigração, os "fantasmas" que assombram a FN.

Para o sociólogo e escritor Sylvain Crépon, autor de um livro sobre a FN, a novidade de 2012 é que Marine começa a agregar apoio nos centros urbanos, conquistando também eleitores de melhor nível educacional e melhor condição financeira. "Ela é a mais jovem dentre os grandes, e encarna a modernidade", explica Crépon.

Marine não apenas tenta pesar no segundo turno, como projeta um papel de protagonista no futuro. Para tanto, alguns passos vêm sendo estudados, entre eles mudar o nome do partido, uma tentativa de dissociá-lo de sua relação com a xenofobia. Tudo com um objetivo mais audacioso: implodir a UMP e tornar-se a nova cara da direita na França.

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