AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI
AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI

ONG pequena ganha Nobel da Paz por tratado pelo fim de armas nucleares

Premiada pela luta em favor da proibição dos arsenais atômicos, Ican tem três funcionários e opera em modesto escritório de Genebra, mas conta com ajuda de uma rede de 468 organizações parceiras espalhadas por mais de 100 países

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 06h03
Atualizado 06 Outubro 2017 | 20h38

GENEBRA - Num escritório apertado e cedido gratuitamente por uma entidade religiosa, uma organização com 3 funcionários, mas centenas de representantes pelo mundo, conseguiu em 10 anos convencer governos de diversas linhas a aprovar um tratado para proibir armas atômicas. O avanço improvável garantiu à Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican, sigla em inglês) nesta sexta-feira, 6, o Nobel da Paz.

A ONG sabe que recebeu o prêmio por ser um símbolo de uma mensagem que os promotores do Nobel querem dar: o de que a era nuclear entra em um momento ameaçador, sem controle e com uma proliferação ainda importante da tecnologia. Um recado também claro ao governo de Donald Trump para que não abandone o entendimento com o Irã e um alerta para que a comunidade internacional entre em diálogo com a Coreia do Norte.

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Mas longe da pompa do Prêmio Nobel e de sua aristocracia, a entidade é o retrato da informalidade de seus três funcionários. Ontem, nenhum deles havia ido ao trabalho pensando que fossem estar no centro das notícias no mundo. “Caso contrário, não teria vindo de tênis”, brincava uma delas. Os três celebraram com champanhe o anúncio, no acanhado e desorganizado escritório.

Há apenas dois dias, a diretora da campanha, Beatrice Fihn, usou as redes sociais para chamar Trump de “idiota”. Mesmo no dia mais importante da jovem entidade, outra de suas funcionárias saiu correndo da coletiva para a imprensa mundial para buscar os filhos na escola. Mesmo quando os organizadores do prêmio telefonaram para Fihn, minutos antes do anúncio, ela custou a acreditar. “Achei que fosse um trote”, admitiu. 

O poder e a influência do pequeno escritório está em sua vasta rede de ativistas e na mensagem simples que leva. No total, 468 parceiros pelo mundo têm atuado para convencer políticos locais que armas nucleares não podem existir. Para isso, a organização conta com um exército terceirizado de trabalhadores humanitários, advogados, ecologistas, ativistas de direitos humanos e pacifistas, cada qual em sua entidade espalhada pelo mundo. 

O auge de seu trabalho ocorreu em setembro, quando 122 países assinaram o tratado de proibição das armas atômicas. O Brasil foi o primeiro a tornar-se signatário. “O Brasil foi um grande líder ao processo que levou à proibição dessas armas, principalmente nos últimos três anos, quando o país abraçou essa causa de um tratado de proibição no âmbito da ONU”, diz Cristian Wittmann, gaúcho que representa o Ican no Brasil e pretende estar em Oslo para a entrega do prêmio.

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“A questão do acordo com o Irã e a Coreia do Norte mostram que há sempre uma tensão que envolve essas armas”, acrescentou Wittmann. “Do nosso ponto de vista não é concebível que alguns países tenham e outros não. Ninguém pode ter.”

 

As potências nucleares, com um total de 15 mil bombas atômicas, fizeram questão de boicotar o evento. O objetivo imediato da entidade é criar um consenso mundial de que a maioria quer o fim das armas. A esperança é de que aqueles poucos e poderosos países se sintam constrangidos por suas populações a mudar o rumo. Com o apoio do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, do Dalai Lama e mesmo astros de Hollywood, a entidade ganhou status de referência internacional. 

Em 2007, quando a campanha foi criada, o movimento antinuclear estava disperso. A iniciativa começou um lobby sob um lema simples: eliminar as armas. Usou outro argumento para sustentar que seu objetivo é viável: depois de décadas, a comunidade internacional proibiu armas biológicas, hoje consideradas como um crime de guerra. 

Fihn admite que agora o prêmio “muda a vida” da campanha e lança o trabalho de conseguir novas adesões. Enquanto as potências nucleares destinam mais de US$ 100 bilhões ao ano para manter seus estoques, a Ican tem um orçamento de apenas US$ 1 milhão, proveniente de governos europeus, principalmente Suíça, Alemanha e países nórdicos. Esse orçamento vai dobrar com o prêmio. / COLABOROU LUIZ RAATZ

 

 

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