ONG pequena ganha Nobel da Paz por tratado pelo fim de armas nucleares

Premiada pela luta em favor da proibição dos arsenais atômicos, Ican tem três funcionários e opera em modesto escritório de Genebra, mas conta com ajuda de uma rede de 468 organizações parceiras espalhadas por mais de 100 países

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo

Você pode ler 5 matérias grátis no mês

ou Assinar por R$ 0,99

Você pode ler 5 matérias grátis no mês

ou Assinar por R$ 0,99

Você leu 4 de 5 matérias gratuitas do mês

ou Assinar por R$ 0,99

Essa é sua última matéria grátis do mês

ou Assinar por R$ 0,99

GENEBRA - Num escritório apertado e cedido gratuitamente por uma entidade religiosa, uma organização com 3 funcionários, mas centenas de representantes pelo mundo, conseguiu em 10 anos convencer governos de diversas linhas a aprovar um tratado para proibir armas atômicas. O avanço improvável garantiu à Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican, sigla em inglês) nesta sexta-feira, 6, o Nobel da Paz.

A ONG sabe que recebeu o prêmio por ser um símbolo de uma mensagem que os promotores do Nobel querem dar: o de que a era nuclear entra em um momento ameaçador, sem controle e com uma proliferação ainda importante da tecnologia. Um recado também claro ao governo de Donald Trump para que não abandone o entendimento com o Irã e um alerta para que a comunidade internacional entre em diálogo com a Coreia do Norte.

+ Infográfico: Veja todos os ganhadores do Nobel da Paz

Mas longe da pompa do Prêmio Nobel e de sua aristocracia, a entidade é o retrato da informalidade de seus três funcionários. Ontem, nenhum deles havia ido ao trabalho pensando que fossem estar no centro das notícias no mundo. “Caso contrário, não teria vindo de tênis”, brincava uma delas. Os três celebraram com champanhe o anúncio, no acanhado e desorganizado escritório.

Há apenas dois dias, a diretora da campanha, Beatrice Fihn, usou as redes sociais para chamar Trump de “idiota”. Mesmo no dia mais importante da jovem entidade, outra de suas funcionárias saiu correndo da coletiva para a imprensa mundial para buscar os filhos na escola. Mesmo quando os organizadores do prêmio telefonaram para Fihn, minutos antes do anúncio, ela custou a acreditar. “Achei que fosse um trote”, admitiu. 

O poder e a influência do pequeno escritório está em sua vasta rede de ativistas e na mensagem simples que leva. No total, 468 parceiros pelo mundo têm atuado para convencer políticos locais que armas nucleares não podem existir. Para isso, a organização conta com um exército terceirizado de trabalhadores humanitários, advogados, ecologistas, ativistas de direitos humanos e pacifistas, cada qual em sua entidade espalhada pelo mundo. 

O auge de seu trabalho ocorreu em setembro, quando 122 países assinaram o tratado de proibição das armas atômicas. O Brasil foi o primeiro a tornar-se signatário. “O Brasil foi um grande líder ao processo que levou à proibição dessas armas, principalmente nos últimos três anos, quando o país abraçou essa causa de um tratado de proibição no âmbito da ONU”, diz Cristian Wittmann, gaúcho que representa o Ican no Brasil e pretende estar em Oslo para a entrega do prêmio.

+ Relembre:  Santos é o 6.º latino-americano a receber o prêmio Nobel da Paz

Ican é uma coalizão de grupos não governamentais presente em mais de 100 países Foto: AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI

“A questão do acordo com o Irã e a Coreia do Norte mostram que há sempre uma tensão que envolve essas armas”, acrescentou Wittmann. “Do nosso ponto de vista não é concebível que alguns países tenham e outros não. Ninguém pode ter.”

 

As potências nucleares, com um total de 15 mil bombas atômicas, fizeram questão de boicotar o evento. O objetivo imediato da entidade é criar um consenso mundial de que a maioria quer o fim das armas. A esperança é de que aqueles poucos e poderosos países se sintam constrangidos por suas populações a mudar o rumo. Com o apoio do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, do Dalai Lama e mesmo astros de Hollywood, a entidade ganhou status de referência internacional. 

Ganhadores do Nobel da Paz

1 | 11 Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican) ganhou o Nobel da Paz de 2017 "por seu trabalho em voltar as atenções para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e por seus esforços pioneiros para alcançar um pacto com base na proibição de tais armamentos" Foto: REUTERS/Denis Balibouse
2 | 11 Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2016 Foto: AFP PHOTO / GUILLERMO LEGARIA
3 | 11 Prêmio Nobel da Paz 2015 é uma grande vitória para a Tunísia Foto: Fethi Belaid/AFP
4 | 11 Malala e Satyarthi vencem Nobel da Paz de 2014 Foto: Adnan Abidi e Carlo Allegri/ Reuters
5 | 11 A Organização para Proibição das Armas Químicas (Opaq) ganhou o Nobel da Paz de 2013 por sua participação em desarmar os agentes da guerra civil na Síria  Foto: REUTERS/Fabian Bimmer
6 | 11 O Prêmio Nobel da Paz de 2012 foi dado à UE, presidida por Herman Van Rompuy  Foto: Yves Logghe/AP
7 | 11 O ex-presidente da Finlândia, Martii Ahtisaari ganhou o Nobel da Paz em 2011, junto com a então presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf  Foto: REUTERS/Antti Aimo-Koivisto/Lehtikuva
8 | 11 O dissidente chinês Liu Xiaobo ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2010    Foto: REUTERS/Toby Melville/Files
9 | 11 Logo após ganhar a eleição, o presidente dos EUA, Barack Obama, levou o Nobel da Paz de 2009 Foto: AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
10 | 11 A presidente liberiana Ellen Johnson Sirleaf ganhou o Nobel da Paz de 2011 Foto: Daniel Berehulak/NYT
11 | 11 Al Gore e Pharrell anunciam show 'Live Earth' em junho, em várias cidades, incluindo o Rio; ele ganhou o Nobel da Paz em 2007 Foto: Laurent Gillieron/ EFE

Em 2007, quando a campanha foi criada, o movimento antinuclear estava disperso. A iniciativa começou um lobby sob um lema simples: eliminar as armas. Usou outro argumento para sustentar que seu objetivo é viável: depois de décadas, a comunidade internacional proibiu armas biológicas, hoje consideradas como um crime de guerra. 

Fihn admite que agora o prêmio “muda a vida” da campanha e lança o trabalho de conseguir novas adesões. Enquanto as potências nucleares destinam mais de US$ 100 bilhões ao ano para manter seus estoques, a Ican tem um orçamento de apenas US$ 1 milhão, proveniente de governos europeus, principalmente Suíça, Alemanha e países nórdicos. Esse orçamento vai dobrar com o prêmio. / COLABOROU LUIZ RAATZ

Ganhadores do prêmio Nobel 2017

1 | 6 Confira a seguir os ganhadores do prêmio Nobel em cada uma das categorias Foto: AFP PHOTO / Jonathan NACKSTRAND
2 | 6 Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican) foi premiada "por seu trabalho em voltar as atenções para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e por seus esforços pioneiros para alcançar um pacto com base na proibição de tais armamentos". Na foto, a porta-voz do grupo, Beatrice Fihn (esq.); o representante, Daniel Hogsta; e a cooredenadora, Grethe Ostern Foto: REUTERS/Denis Balibouse
3 | 6 Kazuo Ishiguro foi premiado pela academia pois "em seus romances de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa ilusória noção de conexão com o mundo" Foto: AP Photo/Alastair Grant
4 | 6 O trio formado pelos americanos Barry C. Barish (esq.) e Kip S. Thorne (centro) e o alemão naturalizado americano Rainer Weiss receberam o prêmio por suas "decisivas contribuições ao detector Ligo e à observação de ondas gravitacionais" Foto: EFE/Dsk
5 | 6 Prêmio foi concedido ao alemão Joachim Frank (esq.), ao escocês Richard Henderson (centro) e ao suíço Jacques Dubochet pelo desenvolvimento de métodos de microscopia que revolucionaram a bioquímica utilizando temperaturas muito baixas Foto: REUTERS/Brendan McDermid, Toby Melville and Denis Balibouse
6 | 6 O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2017 foi concedido aos americanos Jeffrey Hall (2.º da esq. p/ dir.), Michael Rosbash (3.º) e Michael Young (dir.) por suas descobertas sobre os mecanismos moleculares que controlam os chamados ritmos circadianos - uma espécie de relógio biológico interno que regula o metabolismo dos seres vivos Foto: Chinese University of Hong Kong Handout via REUTERS

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato