Luisa Gonzalez/REUTERS
Luisa Gonzalez/REUTERS

Campanha militar da Venezuela leva 5 mil civis a fugirem para a Colômbia

Governo Maduro afirma que alvo é ‘grupo armado colombiano’, mas Colômbia diz que Caracas estaria ajudando dissidentes das Farc em sua luta contra outra facção; refugiado venezuelano denuncia que Exército matou seus pais e os fez passar por guerrilheiros

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 05h00

CARACAS - A Venezuela está empreendendo sua maior campanha militar em décadas, tendo como alvo o que diz ser um grupo criminoso que opera dentro de sua fronteira perto da Colômbia. A operação forçou a fuga de 5 mil venezuelanos para o país vizinho e alguns dos que se refugiaram na cidade colombiana de Arauquita denunciam que o Exército matou civis e os fez passar por guerrilheiros. 

A operação – que começou com vários ataques aéreos – representa um afastamento da abordagem empregada contra as organizações ilícitas nas fronteiras. Durante anos, funcionários do governo de Nicolás Maduro toleraram e até cooperaram com esses grupos armados, muitos deles com raízes na Colômbia, enquanto transportavam drogas e outros contrabandos. Agora o país atacou um deles. 

Maduro afirmou que o ataque reflete a política de “tolerância zero em relação aos grupos armados colombianos irregulares”. Mas analistas são céticos sobre a explicação. “Nunca vimos algo assim nessa escala”, disse Kyle Johnson, fundador da Conflict Responses, uma organização sem fins lucrativos com foco em questões de segurança com sede em Bogotá. 

A campanha militar começou no dia 21 em Apure, um dos Estados mais pobres da Venezuela, e causou a morte de nove pessoas que o governo venezuelano considera guerrilheiros. 

No município colombiano de Arauquita, Emir Ramírez diz que fugiu da Venezuela antes que seus pais, um irmão e um tio fossem mortos por militares venezuelanos. Ramírez mostra com revolta as fotos de seus parentes assassinados, alguns usando botas e portando armas que ele diz nunca ter visto. “Por que os assassinaram?”, questiona o comerciante de 26 anos, defendendo a inocência dos parentes. “Não eram guerrilheiros.”

Ramírez temeu por sua vida e a de sua mulher e fugiu com ela em uma canoa pelo Rio Arauca para o lado colombiano, onde tem mais parentes e um filho de 7 anos. Em vão, tentou convencer os pais a acompanhá-lo. 

Os parentes de Ramírez foram mortos no dia 25. Naquela mesma noite, um conhecido lhe mostrou pelo celular fotos dos corpos dos pais dele, do irmão Uriel e do tio Yanfran, vestidos com uniforme militar e armados. “A primeira foto que vi foi a da minha mãe, com um revólver jogado no chão ao lado dela. Com botas que dizem ser de guerrilheira”, lembra, incrédulo. Na imagem seguinte, seu pai jaz com botas, calças verdes e um revólver do lado. 

Carlos Valdés, ex-diretor de Medicina Legal na Colômbia, investigou execuções de civis pelas mãos de militares colombianos que os faziam passar por guerrilheiros. Para o analista forense, os corpos da família de Ramírez foram dispostos para que aparecessem de barriga para cima, com uma arma na mão em um mesmo “padrão de simulação”.  

O governo Maduro culpa seu vizinho de descuidar os 2.200 km de fronteira e permitir a expansão de grupos armados. Mas a Colômbia e a oposição venezuelana asseguram que Caracas pretende com esta ofensiva ajudar guerrilheiros dissidentes colombianos na luta que travam com outra facção pelo controle do tráfico de drogas. 

O ataque, centrado em torno de La Victoria, uma cidade de cerca de 10 mil habitantes, tem como alvo uma facção de dissidentes das Farc conhecida como a Décima Frente, segundo moradores locais, levando especialistas em segurança a sugerir que eles podem ter quebrado regras estabelecidas pelo governo Maduro ou seus aliados.

Os ataques aéreos foram seguidos de combates terrestres entre os militares venezuelanos e a Décima Frente, disse Juan Francisco García, do grupo venezuelano de direitos humanos Fundaredes. Ele descreveu “uma população civil presa entre grupos beligerantes”. 

Ataque

“Ainda estava escuro quando comecei a ouvir os caminhões”, disse Miguel Antonio Villegas, de 66 anos, porta-voz chefe do conselho comunitário de La Victoria. “Depois, as bombas começaram.” 

Os bombardeios continuaram na área próxima a La Victoria e soldados começaram a invadir a cidade, interrogando civis e entrando em suas casas, acusando-os de colaborar com a guerrilha. 

Aparentemente, os dissidentes das Farc responderam à ofensiva. Dois dias após o início da campanha militar, uma bomba explodiu deixando a cidade sem energia elétrica, um ataque que a Fundaredes atribuiu aos guerrilheiros. 

No dia seguinte, os ataques aéreos foram tão perto de La Victoria que centenas de pessoas começaram a cruzar o estreito rio que separa a cidade venezuelana de Arauquita, na Colômbia.

Desde então, os militares intensificaram sua presença em La Victoria, segundo uma testemunha civil que pediu para não ser identificada, temendo retaliação das forças de segurança venezuelanas.

O homem, dono de um pequeno mercado, descreveu soldados cercando os aldeões, exigindo identificação, prendendo-os contra as paredes e apontando armas contra eles. Em um caso, disse ele, um residente foi forçado a se ajoelhar e então foi espancado e detido.

Na quarta-feira, em La Victoria, as autoridades venezuelanas detiveram dois jornalistas do canal venezuelano NTN24 e dois ativistas de direitos humanos do Fundaredes que tentavam documentar a crise. Eles foram mantidos presos por um dia antes de serem liberados, de acordo com familiares e amigos.

O governo venezuelano designou dois promotores para investigar as acusações de abusos, anunciou o procurador-geral, Tarek Saab. Mas também procurou limitar a cobertura noticiosa da campanha militar, segundo Fundaredes.

Tamara Taraciuk Broner, vice-diretora da Human Rights Watch para as Américas, classificou os abusos documentados por sua organização como “um estudo de caso nas atrocidades que o regime vem cometendo, e continua realizando, com impunidade”.

“Esta deve ser uma chamada de atenção para o Tribunal Penal Internacional, que tem o dever e o poder de investigar criminalmente aqueles que são os responsáveis pelos crimes internacionais mais hediondos”.  

Minas

Maduro anunciou neste domingo que a Venezuela vai pedir "ajuda imediata" à ONU para "desativar os campos minados" que grupos irregulares plantaram, segundo Caracas, na fronteira com a Colômbia, onde confrontos estão sendo travados desde o final de março.

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, "dirige um comunicado ao secretário-geral Antonio Guterres das Nações Unidas para solicitar ajuda emergencial imediata para que tragam todas as técnicas para desativar os campos minados deixados por esses grupos irregulares de assassinos e traficantes de drogas vindos da Colômbia", disse Maduro em um discurso na TV. / NYT e AFP

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