Ciro Fusco/ANSA via AP
Ciro Fusco/ANSA via AP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Campanha perigosa

A primeira preocupação do governo do país das minorias acrobáticas é não se dissolver

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

Jean-Claude Juncker é presidente da Comissão Europeia, mas, acima de tudo, é um bombeiro. Ele passa a maior parte do tempo a combater (ou pelo menos a observar) os incêndios que ameaçam um ou outro dos membros da União Europeia. A Grã-Bretanha deixou o grupo, mas luta para oficializar o divórcio. A Alemanha, antes sólida como rocha, hoje está frágil como areia. A Áustria namora a extrema direita. A Espanha não sabe o que fazer com a Catalunha. A Grécia não se define pela Europa ou contra ela. Nostalgias fascistas pairam sobre Eslováquia e Polônia. E, por toda parte, rosnam os bandos neonazistas. 

+ Eleição indica volta da direita na Itália

Pobre Juncker! Em sua dupla função de bombeiro e médico de pronto-socorro, ele volta agora os olhos para a Itália. Há 15 anos, os políticos italianos dedicam tempo e energia a formar minorias acrobáticas cuja primeira preocupação é não se dissolver. Do exterior, observamos esse desempenho com um olhar divertido e quase de admiração, pois, apesar de tudo, o navio oscila, mas não tomba. 

+ Crise de 2008 ainda castiga eleitores italianos

Agora, porém, a Itália assusta. Os europeus não se lembram de uma campanha tão bizarra, perigosa e difícil de se entender. Há muita gente se insultando. Os grandes partidos continuam vivos, mas encolheram e são desafiados por formações minúsculas, que nascem num dia e desaparecem no outro. 

Em 2013, havia 10 grupos no Parlamento. Agora, são 25. Há enxames de candidatos. Em meio à confusão, algumas figuras são conhecidas. Uma é Silvio Berlusconi, com seu eterno sorriso e suas garotas seminuas. O mais estranho é que ele faz campanha de graça, uma vez que decisões judiciais o impedem de assumir cargos públicos. Qual seu papel na eleição? É uma fantasia de velho que se recusa a entender que morreu e continua brincando de vivo? 

Nem tanto. Berlusconi é mortalmente viciado em política. Não riam de seu ressurgimento: ele não tem nada desses patos que continuam correndo pela cozinha com o pescoço cortado. Berlusconi permanece, mesmo despojado de alguns direitos, no centro do jogo político e é um atores mais dotados. Se não pode ser premiê, pode fabricar um. 

Para isso, tem a ferramenta perfeita: o partido Força Itália, que atrai aliados importantes. Esses grupos, empoleirados uns nos outros, esperam conseguir votos para formar maioria no Parlamento e chegar à chefia de governo.

O Força Itália é aliado de outra poderosa formação, a Liga Norte, partido de direita, populista e xenófobo. Outro aliado é o pequeno e agressivo Irmãos da Itália, dirigido por Georgia Meloni, uma pós-fascista. Neste bloco de direita, Berlusconi passa por moderado. Em termos de radicalização, perde de longe para todos os aliados. Segundo pesquisas, a direita teria entre 35% e 38% dos votos. 

Resta uma incógnita: admitindo-se que a coalizão vença, que partido assumirá a liderança? No momento, o Força Itália está numa apertada dianteira. Mas o fascínio da Liga Norte, combinado à desolação em que se vê a Itália, a favorecem. Assim, quem chegaria ao Palácio Chigi seria seu chefe, o impetuoso e intransigente Matteo Salvini. Se o Força Itália chegar à frente, o futuro premiê será o contido e civilizado Antonio Tajani, apadrinhado por Berlusconi.

Diante do bloco de direita, a esquerda está de crista baixa, ainda abalada pelos três anos de Matteo Renzi no governo. Ele é o homem que quis reformar a Itália no grito e acabou dando com a cara no chão. A única incógnita é o tamanho da derrota que ele terá.

Por fim, vem o Movimento 5 Estrelas (M5S), criado pelo comediante Beppe Grillo. Após um início retumbante, o partido perdeu o rumo e se envolveu em escândalos de corrupção nas prefeituras recentemente conquistadas. Qual é seu o programa? Ninguém sabe. Cada porta-voz tem sua versão. 

Em meio a tantos erros, qualquer país normal mandaria de volta esse movimento para o lugar de onde ele saiu: o circo. Mas não, ele está a toda. Dizem que terá mais votos que o Força Itália. Ainda não dá para imaginar o palhaço Grillo como premiê, pois os aliados do Força Itália superam o M5S. Mas, quem sabe?

O panorama na Itália é imprevisível, nebuloso, indescritível. Mas há um elemento agregador. A Itália é fascinada pela direita mais obscura. E essa direita se nutre, sem se fartar, do ódio aos migrantes. Por isso, o bondoso senhor Juncker continuará tendo muito trabalho. / Tradução de Roberto Muniz

Gilles Lapouge é correspondente em Paris

Mais conteúdo sobre:
Itália [Europa] Silvio Berlusconi

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.