Campanhas presidenciais se tornam maratonas

Eleições presidenciais nos Estados Unidos têm se tornado cada vez mais longas e caras, levando o eleitor americano a se queixar de fadiga eleitoral

ALICIA PARLAPIANO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2015 | 02h03

Para o comediante John Oliver, a duração das campanhas americanas não tem graça. "Não tenho nenhum interesse na eleição de 2016, no início de 2015", disse. "Existe um tempo e um lugar para ela. É 2016". Mas, 19 meses antes e mais de uma dezena de candidatos, já encaramos seriamente a disputa. E a mídia os acompanha com igual intensidade.

Nem sempre foi assim. O processo lentamente começou a se estender nas últimas décadas, resultado de mudanças de regras que levaram à adoção das primárias e a uma competição entre os Estados para ter mais influência. A duração maior das campanhas teve como resultado aumentar o volume de dinheiro necessário para participar do processo eleitoral.

É fácil identificar os problemas associados a uma campanha extensa, como o desinteresse e o foco em assuntos banais, mas os benefícios são vários. Por exemplo, o processo é mais democrático do que era, com mais pessoas influindo na escolha do candidato.

No início, logo após a constituição do país, o Congresso escolhia os candidatos à presidência. Em meados do século 19, isso mudou, transformando uma disputa de bastidores em convenções partidárias. Foi somente após a Segunda Guerra que as primárias começaram a chamar atenção e se tornaram um meio de candidatos desconhecidos provarem sua viabilidade.

John Kennedy anunciou sua candidatura no dia 2 de janeiro de 1960, 11 meses antes da eleição. Entre 8 de março e 7 de junho daquele ano, só 16 Estados haviam realizadas primárias democratas. Kennedy entrou na disputa e venceu em sete deles. Sua vitória em Virgínia Ocidental, Estado protestante, foi a indicação de que um candidato católico teria chances na eleição geral.

Outra reviravolta ocorreu quando os democratas mudaram as regras depois da tumultuada convenção de 1968, o que incentivou mais Estados a realizarem primárias. Em 1972, Iowa mudou a sua para janeiro, em parte porque as autoridades locais precisavam de tempo para imprimir documentos num velho mimeógrafo. Em 1976, Jimmy Carter, um desconhecido governador da Georgia, conquistou apoio ao passar uma temporada significativa em Iowa. Os futuros candidatos tomaram nota disso.

No fim dos anos 80, outros Estados passaram a realizar primárias mais cedo para ter mais influência. Condensar o calendário nos meses iniciais do ano exigiu dos candidatos mais recursos já no início da empreitada. Em 2008, 80% dos Estados realizaram primárias em janeiro, fevereiro ou março.

Em 2016, parece que as campanhas começam mais devagar. Em 2007, muitos candidatos declararam intenção de concorrer no fim de março. Agora, Ted Cruz foi o único a fazê-lo. Mas, como diz Oliver, as campanhas começam bem antes das declarações oficiais. A chamada primária invisível, período durante o qual candidatos cortejam doadores, recrutam mão de obra e avaliam a viabilidade da eleição, tem início muito antes.

Apesar de precocidade não ser algo novo, a natureza da mídia hoje significa que ela é muito mais visível do que o normal, o que explica porque a campanha parece tão longa. Independentemente de seu início, o processo nos EUA é mais longo do que em qualquer outro país.

Na Europa, o sistema é mais comandados pelos partidos, com seus líderes decidindo sobre os candidatos, e não há eleições abertas dentro da agremiação. Muitos partidos definem os períodos de campanha, que duram de algumas semanas a vários meses, durante os quais os gastos são controlados. Alguns países parlamentaristas nem têm data de eleição - o chefe de governo convoca a votação a seu critério.

Na França, a campanha dura duas semanas por turno, embora os candidatos comecem a debater mais de um ano antes. O processo tem se alongado nos últimos anos à medida que os grandes partidos também começaram a realizar primárias.

Na Grã-Bretanha, onde o premiê decide quando convocar a votação, o governo de coalizão é que estabeleceu a data da próxima eleição: 7 de maio. Como os candidatos estão sujeitos a limites de gastos, o fato de saber quando a eleição ocorre os encoraja a gastar mais cedo. Mas, apesar do processo ampliado, a eleição realmente só começa na cabeça da população quando a rainha dissolve o Parlamento, cinco semanas antes.

Então, quais as desvantagens do sistema nos EUA ? Por exemplo, muitos eleitores sentem essa fadiga à qual Oliver se referiu, especialmente com tantas propagandas negativas. Pesquisas apontam que para a metade dos americanos a campanha é muito longa. E campanhas longas são mais caras, porque os candidatos começam mais cedo a arrecadar fundos. Mas, por mais difíceis que sejam, há coisas boas no sistema americano. Campanhas longas permitem que candidatos desconhecidos se apresentem. "Ninguém sabia quem era Bill Clinton nove meses antes de ele se tornar presidente", disse Bruce Buchanan, da Universidade do Texas. O mesmo ocorreu com Jimmy Carter, em 1976.

Para aqueles convencidos de que as desvantagens são maiores, os partidos nos deram alguma esperança. Democratas e republicanos estabeleceram novas diretrizes em 2012, exigindo que muitos Estados esperassem até março para realizarem suas primárias - mudanças que de fato foram adotadas para 2016. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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