ANDREI NETTO/ESTADAO
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Campo de imigrantes na França é 'militarizado'

Governo oferece a estrangeiros de favela em Calais transferência para contêineres

Andrei Netto ENVIADO ESPECIAL / CALAIS, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2016 | 07h00

Símbolo do caos provocado pela pressão migratória na Europa Ocidental, a “selva” – acampamento de estrangeiros que tentam alcançar a Grã-Bretanha a partir de Calais – está sendo “militarizada” pelo governo da França. 

Com o objetivo de reduzir o número de estrangeiros que tentam atravessar o Canal da Mancha, o Ministério do Interior francês vem substituindo barracos da favela por uma área de alojamentos coletivos cercada por grades e monitorada por agentes de segurança, na qual a entrada e a saída é controlada por impressões digitais.

A reportagem do Estado retornou à “selva” nesta semana, seis meses após a última passagem. À época, milhares de migrantes forçavam as instalações da Eurotunnel, empresa que explora a passagem sob o Canal da Manha, na expectativa de alcançar o território britânico tomando clandestinamente trens ou caminhões de carga que circulam entre os dois países.

Para enfrentar o assédio, grandes barreiras metálicas com arame farpado haviam sido instaladas em torno da área do porto de Calais e da Eurotunnel. Foi o início do processo.

O isolamento, entretanto, não surtiu efeito. Desde então, o número de imigrantes na “selva” de Calais continuou aumentando, até com a chegada de pessoas que em um primeiro momento haviam optado pela Alemanha. A favela cresceu, ganhando cara e estrutura de uma cidade, ainda que miserável. 

É para combater essa transformação que o governo francês está intervindo, com a construção dos primeiros Centro de Acolhimento Provisório (CAP). Contrastando com o caos da “selva”, o centro é limpo e tem saneamento, mas lembra uma prisão. Nele, a segurança é centralizada e realizada por policiais e scanners de impressões digitais autorizam a passagem dos moradores por roletas eletrônicas. Grades altas e um fosso isolam o local. 

É em torno dessas instalações que governo e organizações não governamentais travam uma queda de braço na Justiça. Na sexta-feira, um grupo de 10 associações, entre elas, os Médicos Sem Fronteiras (MSF), recorreram ao Conselho de Estado, mais alta corte do país, contra a decisão do Tribunal Administrativo de Lille. A instância autorizou, na quinta-feira o Ministério do Interior a desmontar as barracas, oferecendo como alternativa a transferência para os contêineres.

Reações. Em Calais, o desmantelamento de cerca de 65% da área divide os migrantes. Hilluddin Hadyai, estudante de 16 anos que deixou a família para trás no Afeganistão para tentar a sorte em Londres, optou pela transferência. “Me mudei porque é mais quente”, diz o adolescente, referindo-se ao sistema de aquecimento que protege os quartos coletivos do CAP.

Fariz Youssouf, de 24 anos, originário do Chade, também decidiu pelas novas instalações por motivos semelhantes. “Aqui não faz frio, a água é quente e a segurança não me incomoda”, diz o jovem que cruzou a Líbia e pagou € 300 para atravessar o Mediterrâneo em um bote precário, que chegou à Itália.

Das 1,5 mil vagas do CAP, havia menos de 200 disponíveis na sexta-feira. Elas não atendem aos, no mínimo, 3,7 mil estrangeiros que vivem na “selva” – na maioria, sírios, iraquianos, afegãos e iemenitas – nem serão suficientes para abrigar os cerca de mil que, segundo o Ministério do Interior, serão desalojados nas próximas três semanas na região sul da favela.

Na sexta-feira, o governo anunciou a criação de 500 novas vagas não só no centro de Calais, mas em 70 cidades da França. 

O problema é que uma grande parte dos habitantes da “selva” não aceita a transferência. Além da evidente militarização, não há nenhuma estrutura para ensino, religião, comércio ou lazer no CAP. “Mudei das tendas para um contêiner, mas me sinto mal e vou sair. Faz muito frio nas tendas, mas aqui não podermos ir e vir como queremos”, diz o sírio Morad Frouh, de 23 anos, estudante de psicologia que foi preso pelo regime de Bashar Assad antes de fugir do país. 

Nas suas tentativas de cruzar o canal, Morad já chegou a caminhar 40 quilômetros em um dia. Agora, o limite físico e psicológico está próximo. “Ou vou para a Grã-Bretanha, ou vou retornar para Daraa (na Síria).”

Mohamed Frouh, professor de inglês de 24 anos e amigo de Morad, também se mudou de um barraco para um contêiner, mas diz estar cansado do rigor militar da instalação. Como seu amigo, ou passa para a Grã-Bretanha ou vai embora. Sobre a proposta do governo para que faça um pedido de asilo na França, Mohamed Frouh é claro. “Aqui, não fico”, diz. “Aqui, não gostam de muçulmanos.”

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