Camponeses anunciam trégua ao governo de Cochabamba

Os sindicatos de camponeses de Cochabamba, na região central da Bolívia, anunciaram nesta quinta-feira, 18, uma trégua nos protestos contra o governador do Departamento, Manfred Reyes Villa, que voltou à cidade, mas ainda não reassumiu suas funções.A suspensão das mobilizações foi comunicada em entrevista coletiva por Julio Salazar, secretário-geral da Federação de Trabalhadores Camponeses do Trópico de Cochabamba, organização dos produtores de folha de coca da região.Reyes Villa reapareceu nesta quinta publicamente na cidade de Cochabamba, capital do Departamento de mesmo nome, e anunciou que pedirá à Organização dos Estados Americanos (OEA) e à União Européia (UE) que enviem uma missão para avaliar a situação da democracia na Bolívia.O conflito, iniciado no início deste mês, causou a morte de um camponês e de um jovem da capital, durante um brutal confronto entre opositores e simpatizantes de Reyes Villa, que deixou mais de 200 pessoas feridas, além de vários policiais.Nesta quinta, Salazar voltou a responsabilizar Reyes Villa pelo conflito iniciado no começo do mês, quando os camponeses invadiram Cochabamba para forçar o governador a deixar o cargo, acusando-o de traição - por insistir em um modelo de autonomia regional que a população rejeitou em plebiscito -, corrupção e descumprimento de promessas eleitorais.O dirigente sindical anunciou que os camponeses moverão um processo contra os autores intelectuais e materiais do que chamou de "massacre" de agricultores rebelados contra o governador departamental, que teria sido realizado por grupos urbanos.Salazar também reiterou que os sindicatos não reconhecem o chamado "governo popular", formado na terça-feira, em uma assembléia convocada pelos camponeses, que depois passou a ser controlada por grupos radicais.Salazar não quis responder se a mobilização contra Reyes Villa foi um fracasso, e assegurou que os manifestantes tiraram o governador de seu cargo."Agora suspendemos a mobilização, mas mantemos um estado de emergência", explicou Salazar, após uma reunião com o líder do sindicato de cocaleiros, o presidente Evo Morales.Em La Paz, o porta-voz presidencial, Alex Contreras, ratificou a suspensão das medidas de força na cidade de Cochabamba, decisão tomada na reunião entre Morales e os líderes populares."Na reunião realizada nesta quarta-feira com o presidente da República e com os movimentos sociais, foi determinada a retirada de todos os setores que estavam mobilizados", afirmou o porta-voz.A retirada foi determinada, acrescentou, "para que a normalidade retorne a uma cidade que permaneceu em conflito durante vários dias".Contreras disse que o conflito ocorre entre os sindicatos e o governador Reyes Villa, únicos responsáveis por negociar a resolução das reivindicações das duas partes. "Só haverá um diálogo entre estes dois setores quando o governador se mostrar disposto a isso", afirmou.As acusações sobre sua falta de disposição para dialogar foram rebatidas pelo governador regional, que retornou a Cochabamba na quarta-feira e reapareceu nesta quinta em público para visitar os feridos nos confrontos registrados na semana passada, entre manifestantes e cidadãos locais que defenderam sua gestão."Lamento o ocorrido. É hora de esclarecer as coisas", declarou Reyes Villa, ao entrar em uma clínica de Cochabamba, na qual um adolescente se recupera de traumatismos causados por golpes recebidos dos camponeses.Ele também lamentou "a agressão à democracia" por parte de grupos favoráveis ao governo que incitaram os atos violentos ocorridos em Cochabamba. O governador pedirá à OEA e à União Européia que enviem à região os observadores que foram à Bolívia para o pleito de dezembro de 2005, quando foi eleito para o cargo do qual os camponeses agora querem destituí-lo.O governador, que delegou interinamente suas funções ao secretário-geral da Prefeitura, Johnny Ferrel, voltou uma semana depois de ter partido para La Paz e Santa Cruz, em busca do apoio de outros cinco governadores regionais opositores.O governador de Cochabamba afirmou que não renunciará, e que Ferrel continuará em seu posto por, provavelmente, mais duas semanas, enquanto ele se ocupa das mediações internacionais "para fortalecer a democracia", que está enfraquecida por "grupos intransigentes" influenciados pelo oficialismo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.