Camponeses relatam abusos e tortura por parte das autoridades

Falta da filha em exame para provar ausência de gravidez levou Song Chuan Ying a quatro dias de espancamento

LINYI, CHINA, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h03

Quando sua filha deixou de voltar à vila rural para fazer o exame periódico para provar que não estava grávida, Song Chuan Ying, de 62 anos, tornou-se o alvo da violência dos responsáveis pelo controle de natalidade em sua região. Em 20 de junho, um grupo de funcionários a retirou de casa e a levou a um centro de detenção improvisado, onde parentes de "infratores" são mantidos. Song foi seriamente espancada e quatro dias mais tarde continuava no hospital - cuja conta seria paga pela família.

"Minha mulher passou um dia detida e voltou para casa por volta das 20 horas. Ela não conseguia andar, tinha dificuldade para falar e estava aterrorizada", disse seu marido, Li Derong, de 62 anos, na casa do casal em Linyi.

Sua filha trabalha em outra cidade e as autoridades locais haviam concordado em que ela enviasse por correio os exames de gravidez, o que ocorreu durante um período - as camponesas têm de realizar checagens a cada três meses. Mas a orientação mudou de maneira repentina.

"Minha filha é divorciada, tem duas filhas, e não havia razão para ela voltar", ponderou Li. "Nós obedecemos à política de controle de natalidade. Por que levaram minha mulher e a trataram dessa maneira?", perguntou.

Os moradores da zona rural podem ter um segundo filho se o primeiro for mulher, mas a nova gravidez só pode ocorrer quando a mãe tiver mais de 30 anos.

Song foi levada para um centro de detenção na vila Xiagou, onde poucos dias antes o camponês Wang fora confinado com sua mulher e a cunhada porque sua sobrinha havia deixado de voltar para o exame periódico. "Havia mais cinco pessoas lá pela mesma razão. Homens e mulheres dividiam o mesmo quarto."

Wang foi solto logo e teve de assinar uma nota promissória de 1.780 yuans (US$ 280) para conseguir libertar a mulher e cunhada, três dias mais tarde. É a chamada "taxa de estudos" que as famílias têm de recolher mesmo que a prisão seja arbitrária. O camponês ganha 5.000 yuans (US$ 786) por ano e terá de emprestar dinheiro para pagar a fiança.

Na vila Xiaoxujiazhaizi um grupo de dez homens invadiu a casa da família do camponês Xu Wenyin. A filha não estava e eles começaram a agredir o pai e tentavam arrastá-lo para um carro, quando o filho de 23 anos interveio em sua defesa. Um dos agressores empunhou uma faca e o esfaqueou duas vezes. O jovem morreu a caminho do hospital. / C. T.

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