Campos de golfe são o novo alvo de Chávez

Objetivo é transformar clubes de ?esporte burguês? em áreas habitacionais

Simon Romero, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

O movimento político do líder venezuelano, Hugo Chávez, encontrou um novo alvo: o golfe. Depois de uma breve investida do presidente contra o esporte, em rede de TV, no mês passado, os partidários de Chávez fecharam nas últimas semanas dois dos mais conhecidos campos de golfe da Venezuela, em Maracay, perto da capital, e na cidade costeira de Caraballeda. "Deixemos isto bem claro", disse Chávez durante um programa dominical na TV. "O golfe é um esporte burguês", disse, repetindo a palavra "burguês" como se estivesse engolindo óleo de fígado de bacalhau. Depois prosseguiu, zombando da utilização dos carrinhos de golfe como uma prática que ilustra a indolência desse esporte. Se o fechamento dos campos de golfe for adiante, o número de campos desativados nos últimos três anos chegará a nove, disse Julio L. Torres, diretor da Federação Venezuelana de Golfe. O projeto que previa a construção do campo de golfe mais importante da América do Sul, na Ilha Margarita, parou por problemas financeiros. A maior parte dos campos fechados encontra-se em regiões petrolíferas, perto de Maracaibo (oeste) e no Estado de Monaga (leste). Inicialmente, eles foram construídos por americanos que trabalhavam na indústria petrolífera. Chávez expulsou dissidentes da companhia petrolífera nacional justamente porque suspeitava que os campos de golfe fossem fortalezas da antiga elite. A escassez de habitações também impulsionou o governo, disse Chávez no mês passado, questionando o motivo pelo qual Maracay tinha tantas favelas enquanto o campo de golfe e a área do Hotel Maracay de propriedade do Estado ocupam cerca de 30 hectares de um local muito cobiçado. "É assim que um grupo restrito de burgueses e pequenos burgueses pode ir lá e jogar golfe", disse o presidente. Em apoio a Chávez, notório fã de beisebol, a imprensa estatal dirigiu suas baterias contra o golfe. BRIGAOs chavistas já haviam criticado o esporte em outra ocasião. Em 2006, Juan Barreto, ex-prefeito de Caracas, tentou assumir o controle do campo do Country Clube de Caracas, onde pretendia construir milhares de casas para os pobres. A medida provocou uma briga entre os chavistas. Depois de uma batalha que foi parar na Justiça, Barreto desistiu. Os críticos da campanha contra o golfe destacam que o principal aliado da Venezuela, Cuba, vai em sentido contrário. Investidores canadenses e europeus pretendem construir nada menos que dez novos campos de golfe na ilha, segundo um programa do governo cubano para aumentar a receita do turismo. "A China tem mais de 300 campos de golfe e veja o que acontece lá", disse Torres, diretor da Federação Venezuelana de Golfe, lembrando de outro país comunista com o qual a Venezuela mantém fortes laços. Em Maracay, as autoridades estudam a possibilidade de construir casas para a população de baixa renda no campo de golfe ou de transformá-lo em um campus da Universidade Bolivariana de Chávez. Por outro lado, Chávez disse que não pretende proibir o golfe. "Respeito todos os esportes. Mas há esportes e esportes. Você quer me dizer que o golfe é um esporte popular? Não é."

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