MARTIN OUELLET-DIOTTE / AFP
MARTIN OUELLET-DIOTTE / AFP

Canadá celebra liberação da maconha, mas mercado age com prudência

Primeiro dia de venda legal da droga é marcado por longas filas em todo o país e por uma inesperada queda nas ações das empresas do setor

O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2018 | 21h31

MONTREAL - Depois de quase um século de proibição, o Canadá se tornou nesta quarta-feira, 17, o segundo país do mundo, depois do Uruguai, a legalizar a maconha recreativa, uma reforma histórica comemorada ansiosamente pelos consumidores dessa droga e pelos mercados.

Embora na província de Quebec, as lojas da estatal Sociedade da Cannabis Quebequense (SQDC, em francês), tenham aberto às 10 horas (11 horas de Brasília), os primeiros clientes acamparam nas portas do estabelecimento desde a noite anterior.

Em Montreal, em frente à sucursal da SQDC na rua Sainte-Catherine, uma das principais vias da cidade, Mathieu aguardava desde as três da manhã. "É histórico, queria estar aqui".

Dezenas de pessoas faziam fila pacientemente desde o amanhecer na calçada. Em cadeiras dobráveis, vários matavam o tempo fumando um baseado.

"Há tempos devia ter sido legalizada. Fumo desde que tenho 15 anos, estou com 33 (...) Tenho 300 dólares (R$ 849) no bolso", acrescenta Mathieu.

Sebastian Bouzats, francês de Bordeux, veio "para viver a experiência e provar os sabores", embora tenha admitido que todos ali têm erva em casa. "Todos os franceses virão fumar aqui", brincou.

No entanto, as empresas de cannabis reagiram sem tanto ânimo à entrada em vigor da legalização no Canadá, mas com o passar o dia se recuperaram um pouco.

Todas as empresas canadenses cotadas na bolsa de Nova York sentiram o impacto. A Tilray (-6,40%), a Canopy Growth (-4,38%) e a Cronos (-7,55%) caíram em um mercado mais frágil.

"Era um sonho"

Os primeiros clientes no Canadá compraram seus primeiros gramas de cannabis legal à meia-noite (22h30 de terça-feira, hora de Brasília) em Saint-Jean-de-Terre-Neuve, na costa atlântica do país.

Desafiando o frio, Ian Power chegou quatro horas antes para "fazer história". "Era um sonho ser a primeira pessoa a comprar o primeiro grama legal de maconha no Canadá, e aqui estou finalmente", declarou. "Estou tão emocionado que não consigo parar de sorrir", disse.

Três anos depois de sua eleição, o governo liberal do primeiro-ministro Justin Trudeau concretizou uma de suas promessas de campanha e o Canadá se converteu no primeiro país do G-7 a legalizar a maconha recreativa, depois do Uruguai, em 2013.

A entrada em vigor desta medida será avaliada tanto pelos canadenses, que irão às urnas dentro de um ano para eleições legislativas, como pelos países aliados de Ottawa, que já autorizaram o uso terapêutico da droga.

O governo permitiu a cada província organizar o comércio da erva, mas há vários modelos em todo o país para um mercado avaliado em US$ 4,6 bilhões de dólares por ano.

Nos últimos dias, a oposição conservadora multiplicou seus ataques contra a medida, que considera precipitada por representar riscos para a segurança e a saúde pública. "Quando as pessoas começarem a ver as consequências (da legalização), culparão Trudeau pelos fracassos", comentou o líder opositor conservador Andrew Scheer.

"Há pelo menos dois anos trabalhamos com os diferentes governos", afirmou Trudeau na terça-feira, repetindo que a legalização permitirá que menores restrinjam o acesso a essa droga e "tirem dinheiro do bolso de organizações criminosas".

O ministro da Segurança Pública, Ralph Goodale, anunciou um plano para perdoar as penas passadas por posse simples, dando às pessoas "um maior acesso a oportunidades de trabalho, educação e moradia". / AFP e EFE

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