Canadá culpa EUA por caso de tortura de cidadão canadense

Uma comissão do governo exonerou um engenheiro de computação canadense de ligações com o terrorismo, e publicou um relatório que culpa os EUA e o Canadá pela deportação do engenheiro, há quatro anos atrás, para a Síria, onde foi preso e torturado.O relatório sobre o engenheiro Maher Arar afirma que funcionários americanos haviam agido com base em informações imprecisas de investigadores canadenses, que então omitiram às autoridades canadenses sobre seus planos para Arar antes de deportá-lo para a Síria. "Posso dizer categoricamente que não há evidências que indiquem que o sr. Arar tenha cometido qualquer ofensa, ou que suas atividades constituam uma ameaça à segurança do Canadá", disse o presidente da comissão Dennis R. O?Connor, em coletiva de imprensa. As descobertas do relatório podem reverberar de forma pesada sobre a liderança da Polícia Real Montada do Canadá, responsável pelas primeiras informações sobre Arar, que levaram policiais dos EUA e do Canadá a suspeitar que ele era um terrorista da Al-Qaeda.As críticas e recomendações do relatório têm como primeiro foco o próprio governo do Canadá e sua atividades, além dos EUA, que se recusaram a cooperar no inquérito.Mas suas conclusões sobre um caso que surgiu como um dos mais infames exemplos de investigação - a transferência de suspeitos de terrorismo para serem interrogados em outros países - aumentam a atenção à administração de presos no governo Bush. E surge em um momento em que a Casa Branca e o Congresso tentam criar uma legislação que crie padrões para tratamento e investigação de prisioneiros. "As autoridades norte-americanas lidaram com o caso do sr. Arar da forma mais lamentável possível", escreveu O´Connor em um relatório de três volumes, mas nem todo o conteúdo foi divulgado. "Eles o transportaram para a Síria contra a sua vontade e sabendo de suas declarações de que ele seria torturado se fosse levado para lá. Além disso, eles lidaram com os policiais canadenses de forma pouco sincera". RepercussãoUm porta-voz do departamento de justiça dos EUA Charles Miller, e um porta-voz da Casa Branca que viajou com o presidente para Nova York disseram não ter visto o relatório e, sendo assim, não poderiam comentar.O premiê canadense, Stephen Harper, disse que o Canadá pretende agir com base no relatório, mas não deu Masi detalhes. "Provavelmente nas próximas semanas poderemos dar Masi detalhes sobre o assunto", disse o premiê a repórteres.Nascido na Síria, Arar foi preso em 26 de setembro de 2002, após aterrissar em Nova York, quando voltava para casa após férias na Tunísia. No dia oito de outubro ele foi levado para a Jordânia em um avião do governo americano, e de lá para a Síria, onde ficou preso por dez meses em uma cela minúscula e apanhou diversas vezes com uma barra de ferro. Ele foi libertado em outubro de 2003, quando policiais sírios concluíram que ele não tinha conexões com o terrorismo e o devolveram ao Canadá.O caso de Arar atraiu bastante atenção no Canadá, onde críticos viram como um exemplo do excesso da campanha contra o terror iniciada após o 11 de Setembro. Arar, em coletiva de imprensa, elogiou as investigações. "Hoje, O´Connor limpou meu nome e restaurou minha reputação", afirmou. "Peço que o governo do Canadá aceite as descobertas do relatório e detenha os responsáveis".

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