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Diane Burrel /via Reuters
Diane Burrel /via Reuters

Canadá enfrenta onda de ataques a igrejas após descobertas de túmulos de crianças indígenas

Líderes indígenas esperam encontrar muito mais túmulos não identificados conforme as comunidades em todo o país recorrem ao radar de penetração no solo para descobrir segredos obscuros enterrados há décadas

Michael E. Miller / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 05h00

OTTAWA - O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, denunciou na quarta-feira,30, uma recente onda de vandalismo e incêndios suspeitos em igrejas, muitas localizadas em terras indígenas, mas não cancelou as comemorações do Canada Day (Dia do Canadá) após as recentes descobertas de mais de mil túmulos não identificados em pelo menos três antigos internatos para crianças indígenas.

“A destruição de locais de culto é inaceitável e deve parar”, disse Trudeau aos repórteres horas depois de um incêndio em Alberta aumentar o número de incidentes em igrejas para uma dúzia nos últimos dez dias.

Os incêndios acontecem enquanto o Canadá enfrenta um dos capítulos mais sombrios de sua história: na quarta-feira foi anunciada a descoberta de mais túmulos não identificados em uma antiga escola para crianças indígenas - pelo menos a terceira descoberta desse tipo desde o fim de maio.

Desde que os primeiros túmulos não identificados foram descobertos, uma dúzia de igrejas em todo o país foram vandalizadas ou queimadas. As autoridades tiveram o cuidado de não vincular os incêndios à descoberta dos túmulos não identificados, mas parte do vandalismo fazia alusão a uma reação.

O papa Francisco, que expressou tristeza em relação aos túmulos, mas não se desculpou em nome da Igreja Católica, concordou em se encontrar com os sobreviventes dos internatos. O governo canadense, assim como as igrejas Presbiteriana, Anglicana e Unida do Canadá, que também administravam internatos, pediram desculpas por suas participações nos abusos.

Protesto e vandalismo

Em Saskatchewan, uma igreja católica estava manchada com marcas de mãos vermelhas e as palavras: "Nós éramos crianças". E em Alberta, onde as comunidades indígenas também estão procurando túmulos não identificados, uma estátua do papa João Paulo II em Edmonton com bichos de pelúcia colocados em sua base, foi vandalizada com as mesmas mãos vermelhas.

Na vizinha Morinville, outro incêndio suspeito na manhã de quarta-feira destruiu uma igreja centenária. E na Colúmbia Britânica, quatro pequenas igrejas católicas em terras indígenas e uma antiga igreja anglicana desocupada foram destruídas por incêndios que as autoridades dizem ser suspeitos.

"Violência inspirada pelo ódio, queimar comunidades religiosas, atingi-las com esses atos de violência e intimidação não são formas de reconciliação", disse o premiê de Alberta, Jason Kenney, a repórteres enquanto visitava os restos carbonizados da igreja de Morinville.

Do outro lado do país, a polícia de Nova Escócia está investigando um incêndio que danificou uma igreja católica em um território indígena a cerca de 8 quilômetros de um antigo internato. 

Bellegarde, o chefe da Assembleia das Primeiras Nações no Canadá, pediu moderação. "Posso entender a frustração, a raiva, a mágoa e a dor", disse ele à Global News. "Mas queimar coisas não é nosso jeito de resolver as coisas."

Revolta na comunidade indígena

A Lower Kootenay Band, que representa os primeiros habitantes da região de Lower Kootenay, na Columbia Britânica, e faz parte do conselho da nação Ktunaxa, disse que um radar de penetração no solo tinha descoberto 182 túmulos não identificados com restos mortais - alguns deles com até um metro de profundidade - na antiga Escola St. Eugene Mission, na Colúmbia Britânica.

"Acredita-se que os restos mortais dessas 182 almas sejam de grupos da nação Ktunaxa, das comunidades vizinhas dos povos originários e da comunidade de aqam", disse a Lower Kootenay Band em um comunicado. A escola foi dirigida por um grupo católico até ser fechada na década de 70.

"Vamos chamar isso pelo que é ... um assassinato em massa de indígenas", disse o cacique Jason Louie à Canadian Broadcasting Corp.

As descobertas de vários túmulos de indígenas não identificados  levaram algumas localidades a cancelar as comemorações do Canada Day - na quinta-feira - que comemora o dia 1º de julho de 1867, quando três colônias britânicas se uniram.

"A comemoração do Canada Day foi vista como uma falta de consideração com todas as vidas de crianças que foram perdidas e encorajamos todos a considerar o preço que essas crianças tiveram de pagar nas mãos do governo canadense", disse em um comunicado o chefe da Federação de Nações Indígenas Soberanas de Saskatchewan, Bobby Cameron.

Trudeau incentivou os canadenses a refletirem a respeito da história do país, sem ignorar as comemorações. "Devemos trabalhar juntos para corrigir os erros do passado", disse ele.

O anúncio da Lower Kootenay Band ocorre um mês depois que a descoberta de 215 túmulos não identificados em outro internato na Colúmbia Britânica desencadeou um acerto de contas nacional. Na semana passada, uma descoberta ainda maior evidenciou a extensão da violência.

Os líderes indígenas esperam encontrar muito mais túmulos não identificados conforme as comunidades em todo o país recorrem ao radar de penetração no solo para descobrir segredos obscuros enterrados há décadas.

"Este é o começo dessas descobertas", tuitou o chefe nacional da Assembleia das Primeiras Nações no Canadá, Perry Bellegarde, na quarta-feira.

Quase 150 mil crianças indígenas foram enviadas para internatos financiados pelo governo e administrados pela igreja, que foram criados no século 19 para assimilar a nova cultura e funcionaram até o fim dos anos 90. Muitas delas eram separadas à força de suas famílias para serem colocadas nessas escolas.

A Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá disse em um relatório de 2015 que muitos dos alunos foram submetidos a abusos físicos e sexuais nessas escolas, onde eram proibidos de praticar suas tradições e de falar em seus idiomas. Segundo a comissão, as escolas realizaram "genocídio cultural" e, na prática, institucionalizaram a negligência infantil.

A comissão identificou mais de 3 mil alunos que morreram nas escolas, uma taxa muito superior à de crianças não indígenas em idade escolar. Esse número tem crescido desde então. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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