Canal iraniano tenta seduzir América Latina

Emissora estatal do Irã em espanhol, HispanTV leva a latino-americanos cultura e visão de Teerã

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h07

Para uma TV estatal do Irã, a grade de programação parece comum. Num talk-show, um líder xiita é entrevistado sobre o conceito de humildade no Islã. Um documentário mostra como "o regime sionista foi humilhado pelo Hezbollah" na guerra de 2006. E a previsão do tempo avisa que chove em "Al-Quds", nome de Jerusalém em árabe. Mas há um detalhe: na HispanTV, toda transmissão do conteúdo iraniano é feita em límpido espanhol.

A emissora é uma subsidiária para a América Latina da Islamic Republic of Iran Broadcasting (Irib), conglomerado estatal iraniano de rádio e TV. Em dezembro, ela foi oficialmente lançada e hoje suas 24 horas de programação são retransmitidas por cinco satélites. É a primeira emissora em espanhol do Oriente Médio.

A estreia da HispanTV foi com uma minissérie sobre o profeta Jesus, conforme a interpretação do Islã. As notícias são apresentadas por mulheres devidamente cobertas com véu e programas mostram os prazeres culinários e turísticos do Irã. A vida do libertador Simón Bolívar provavelmente constará em breve na programação - a HispanTV tem uma pareceria com a Telesul, a emissora criada pelo venezuelano Hugo Chávez.

"Esse novo canal limitará o espaço de supremacia daqueles que buscam a dominação", disse o presidente Mahmoud Ahmadinejad na festa de lançamento da emissora, em Teerã. "Será um meio para ter melhores relações entre os povos e governos do Irã e de países hispanófonos." Ahmadinejad terminou em espanhol: "Viva la paz! Viva el pueblo! Viva America Latina!"

Em conversa com o Estado por e-mail, o gerente-geral do canal, Ali Ejarehdar, não quis explicar como a HispanTV pretende "limitar o espaço de supremacia" dos inimigos do Irã na região - ou seja, os EUA.

Stephen Johnson, que pesquisa as relações Irã-América Latina no Center for Strategic and International Studies (CSIS), diz que Teerã "copia" uma estratégia adotada por potências ocidentais desde o fim da 2.º Guerra: a diplomacia pública. "O Irã quer melhorar sua imagem, mostrar uma face humana. Nada melhor do que uma boa receita culinária ou um programa sobre arte iraniana", afirma. "Mas esse trabalho de convencimento não será fácil. Pesquisas mostram que o Irã tem uma imagem ruim na América Latina, até mais do que a dos EUA."

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