Canalhices africanas

A Guiné Equatorial é um pequeno pedaço da África negra que fica abaixo de Camarões, com pouco mais de 1 milhão de habitantes. Lá, Teodoro Obiang reina há 35 anos. Seu filho, que também se chama Teodoro Obiang, é ministro das Florestas. Sua paixão são os carros. Em novembro de 2009, ele adquiriu um lote deles: sete Ferraris, quatro Mercedes Benz, cinco Bentleys, quatro Rolls-Royces, duas Bugattis, um Aston Martin, um Porsche, um Lamborghini e uma Maserati. Em 2010, completou a série comprando mais uma Ferrari e uma Bugatti (avaliada entre 1,5 e 2 milhões).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Essas canalhices relatadas pelo jornal Le Monde se tornaram conhecidas graças a um inquérito aberto por dois juízes de Paris, envolvendo uma queixa apresentada em 2008 pela Transparência Internacional. No entanto, a "transparência" tem chances de continuar opaca.

Os dois juízes, para dar prosseguimento ao inquérito, precisavam do aval do Executivo francês, ou seja, de Nicolas Sarkozy. Eles tinham alguma esperança, porque Sarkozy, depois de deixar seus aliados caírem - os ditadores Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, no Egito, e Muamar Kadafi, na Líbia -, tornou-se o grande defensor da moralidade na África e prega agora os méritos da "boa governança". Mas o Ministério Público francês rejeitou o pedido dos dois juízes. Os carros de Teodoro Obiang podem repousar tranquilos.

Dois outros tiranos da África negra estavam também na mira dos juízes parisienses. Denis Sassou Nguesso, presidente da República do Congo, cuja esposa acabou de adquirir uma Mercedes e o sobrinho comprou um Porsche Panamá Turbo. E Ali Bongo, novo líder do Gabão, que assumiu o poder depois da morte de seu pai, Omar Bongo, e recentemente comprou uma Bentley de 2,5 toneladas que pode fazer 322 quilômetros por hora (preço: 200 mil).

Esses carros não são as únicas fraquezas desse pessoal. Teodoro Obiang, por exemplo, em um ano, gastou 18 milhões em objetos de arte, podendo, assim, mobiliar as seis residências que possui em Malibu e em outros lugares. Os dois juízes merecem aplauso, porque esses corruptos são profissionais e muito espertos para despistar os detetives.

Um exemplo: Omar Bongo, do Gabão, tinha 54 filhos, 2 mulheres e 32 amantes. Imagine a confusão que tem sido a herança, na qual trabalha em Nice um cartório inteiro, em uma tarefa que não tem fim.

Não podemos compreender a cegueira de Sarkozy, que há três meses tem se apresentado como o "cavaleiro imaculado" que passou a detestar seus antigos amigos do Magreb e os tiranos corruptos da África negra. Ele não apenas se cala a respeito do assunto, como também pediu ao Ministério Público para bloquear os inquéritos conduzidos pelos dois juízes. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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