Candidato a mártir vive sob vigilância

Candidato a mártir vive sob vigilância

Engenheiro afirma que fará greve de fome até a morte para denunciar situação dos presos da ilha

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Quando procurado por jornalistas estrangeiros, Félix Bonne, engenheiro dissidente que promete substituir Guillermo Fariñas na greve de fome para pedir a libertação de presos políticos cubanos doentes, costuma marcar encontros em lugares públicos, como o Parque Central, no centro de Havana.

"Você não sabe como eu sou, não é?", perguntou, na quarta-feira. "Sou negro, vou estar de camisa vermelha e boné. Vou levar minha mulher. Mas só fale comigo depois que eu mostrar a minha identidade." Diante da reação da reportagem do Estado, explicou: "Com certeza essa ligação está sendo gravada porque estou sendo vigiado de perto depois que prometi fazer greve de fome. E "eles" (os agentes do Estado) são bons em vigiar. Treinam há 50 anos."

Não é que às 20 horas havia zanzando pelo parque dois casais negros - ele de vermelho e boné? Bonne, que chegou acompanhado da mulher, Lázara, fez questão de notar o que podia perfeitamente ser uma coincidência - afinal, uma grande parcela da população cubana é negra e o vermelho, a cor símbolo do socialismo, está por toda parte. No entanto, para o dissidente era um grande indício de que a conversa fora ouvida.

A história dá a medida do clima de medo e a sensação de perseguição que vivem em Cuba pessoas que se atrevem a criticar o regime. E é justamente essa perseguição que os leva a formas de protesto como a greve de fome. "Não tenho mais o que fazer. O governo me tomou o emprego, a liberdade, tudo", disse. "Aos dissidentes como eu só nos resta a autodestruição em uma tentativa desesperada de chamar a atenção para o problema dos presos políticos em Cuba", explicou, após contar que já foi detido mais de 20 vezes por pequenos períodos e ficou preso por 4 anos.

Num restaurante, cheio de turistas, mas em um lugar um pouco mais afastado do centro, o dissidente pode contar sua história. Lázara, ao lado, estava desconsolada. "Ainda não se acostumou com a minha decisão, mas pelo menos parou de chorar", disse. Professor da Faculdade de Engenharia da Universidade de Havana por 30 anos, Bonne chegou a dar aulas para o filho do hoje presidente Raúl Castro. "E também lhe dava carona para ir para casa, para você ver como eu nunca fui um terrorista ou contrarrevolucionário", disse. "Era confiável, como eles dizem aqui." Também se orgulha de ter se apresentado como voluntário para lutar em Angola. "Amo meu país e acreditava na revolução."

Expulsão. Bonne caiu em desgraça no início da década de 90, quando, na expectativa de mudanças provocada pela queda da União Soviética, assinou um documento pedindo reformas no sistema político e econômico da ilha. O atrevimento rendeu-lhe a expulsão da universidade.

Em 1997, foi um dos quatro intelectuais que, descontentes com a velocidade das mudanças na ilha, publicou um documento criticando a estratégia econômica do governo batizado de A Pátria é de Todos. O manifesto foi uma espécie de precursor do Projeto Varella, mas cujas críticas se concentravam no terreno econômico, não no político. No grupo estava também Vladimiro Roca, filho de um dos fundadores do Partido Comunista, Blas Roca, o que incomodou o governo.

Os quatro foram presos e julgados em 1999. Bonne foi condenado a 4 anos. "Foram anos bem difíceis, por isso sei o que os presos políticos estão passando e estou disposto a morrer por eles se for necessário", afirmou. Ainda assim, o engenheiro hoje não considera sua luta política.

Sem conseguir trabalho, por ser dissidente (o governo é dono de todas as empresas da ilha e quem quiser trabalhar como autônomo também precisa da autorização do Estado), vive da ajuda enviada por três sobrinhos que moram no exterior e organizações de exilados. "Não vou fazer greve de fome para pedir a queda do regime, caso Fariñas venha a falecer. Minha causa é exclusivamente humanitária", explicou o engenheiro antes de se despedir.

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