REUTERS/Huseyin Aldemir
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Candidato da oposição vence eleição para prefeito em Istambul

Ekrem Imamoglu, do partido social-democrata CHP, derrota Binali Yildirim, aliado do presidente Recep Tayyip Erdogan na repetição da disputa de março, também vencida pela oposição; para analistas, Imamoglu pode ser um forte candidato à presidência

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 16h50

ISTAMBUL - A oposição ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, conquistou neste domingo, 23, a prefeitura de Istambul, capital econômica e cidade mais populosa do país, que era governada pelo governista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) há 25 anos. 

A votação deste domingo, vencida por Ekrem Imamoglu, do partido social-democrata CHP, foi uma repetição da disputa de três meses atrás, também vencida pela oposição, mas contestada na Justiça pelo partido de Erdogan.  De acordo com a apuração de 98% dos votos, Imamoglu obteve 53,9% dos votos contra 45,2% de Binali Yildirim, do AKP, que já admitiu a derrota. A participação nas urnas superou os 84%.

"Meu adversário Ekrem Imamoglu vai adiante. Eu o felicito e desejo boa sorte", disse Yildirim. "Agradeço aos que trabalharam comigo. Espero que a decisão que o eleitorado de Istambul tomou seja boa para a cidade durante estes próximos cinco anos."

"Esta vitória marca um novo começo para a Turquia", comemorou Imamoglu, de 49 anos. "Não foi um único grupo ou partido, mas toda a Istambul e a Turquia que venceram estas eleições", acrescentou. Ele afirmou que está pronto para trabalhar com o presidente Erdogan para resolver os problemas de Istambul. 

Os habitantes de Istambul voltaram às urnas neste domingo para eleger seu prefeito, após o cancelamento das eleições de março, vencidas pelo adversário de Erdogan. Nas eleições municipais de 31 de março, Imamoglu, uma figura emergente da oposição, venceu por uma ligeira vantagem em relação a Yildirim: apenas 13 mil - entre mais de 8 milhões de eleitores.

O resultado, no entanto, foi anulado depois que o AKP apresentou recursos por "irregularidades em massa". A oposição, que rejeita estas acusações, denunciou um "golpe contra as urnas" e considerou as novas eleições uma "batalha pela democracia".

Mais do que uma eleição municipal, as eleições em Istambul foram um teste sobre a popularidade de Erdogan e do AKP, em um momento de sérias dificuldades econômicas. "Quem vencer em Istambul vence na Turquia", disse o presidente antes da votação.

Para Erdogan estava em jogo conservar uma cidade com mais de 15 milhões de habitantes. Já a oposição procurava infligir a primeira grande derrota de Erdogan nas urnas desde 2003. 

Muitos analistas políticos turcos enxergam em Imamoglu um importante futuro no cenário nacional, com possibilidades, inclusive, de disputar a presidência. "Uma segunda derrota seria uma grande humilhação para Erdogan e poderia incitar parte da velha guarda de seu partido a sair com uma nova oferta política", disse Wolf Piccoli, da empresa de análise de risco Teneo Intelligence, antes da votação. "Imamoglu é o primeiro político em quase 20 anos que poderia se tornar um desafiante crível para Erdogan", acrescentou.

Movimento em baixa

Nas eleições de março, o AKP também perdeu Ancara, a capital política da Turquia, após 25 anos de hegemonia dos islâmicos conservadores devido à situação econômica complicada, com uma inflação de 20%, o despencar da lira turca e alta taxa de desemprego.

Erdogan, que no início da campanha mostrou-se discreto para evitar inflamar seus oponentes, voltou ao ringue nos últimos dias, multiplicando os ataques contra Imamoglu.

O presidente passou a se esforçar para minimizar o impacto da votação de março, e chegou a afirmar que essas eleições eram "simbólicas", além de prometer que aceitaria o resultado final. 

Diante dessa retórica polarizadora, Imamoglu mais uma vez apostou em um discurso unificador, repetindo como um mantra seu slogan: "Tudo vai ficar bem". A oposição, no entanto, temia que houvesse fraude e mobilizou uma grande quantidade de advogados para vigiar as urnas.

O partido governista tentou convocar todos os eleitores conservadores, alguns dos quais se abstiveram ou votaram em um rival islâmico em março, e também os curdos. Estes, considerados decisivos, são o tema de uma batalha feroz. O AKP abrandou sua retórica sobre a questão curda nas últimas semanas e Yildrim chegou a evocar o Curdistão, um verdadeiro tabu para seu partido. / AFP, EFE e AP

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