Candidato é assassinado no México

Rodolfo Torre, que liderava as pesquisas para o governo do Estado de Tamaulipas, é o político mais importante morto no país nos últimos 16 anos; governo culpa os cartéis, que estariam intimidando os eleitores às vésperas das eleições regionais de domingo

Reuters e Ap, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

CIDADE DO MÉXICO

Rodolfo Torre, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), candidato que liderava as intenções de voto para o governo do Estado de Tamaulipas, no norte do México, foi assassinado ontem em uma emboscada perto do aeroporto de Ciudad Victoria. Além de Torre, foram mortos também Enrique Blackmore Smer, deputado estadual, e quatro guarda-costas.

Torre é o candidato mais importante a ser assassinado às vésperas da eleição de domingo, quando 12 dos 31 Estados do país escolherão seus governadores. Ele é também o político de mais alto escalão morto no México nos últimos 16 anos.

O crime aumentou os temores de que a violência dos cartéis da droga afetem as eleições. Analistas afirmam que as ameaças dos traficantes, especialmente no norte do México, podem intimidar eleitores e candidatos.

O presidente mexicano, Felipe Calderón, acusou os cartéis de tentar influenciar o processo eleitoral. "O assassinato de Rodolfo Torre mostra que o crime organizado é uma ameaça permanente no país", disse. "É preciso união para combater os cartéis, que querem interferir nas decisões dos cidadãos e no processo eleitoral."

O presidente do Instituto Eleitoral Estadual, Jorge Navarro, informou ontem que a votação em Tamaulipas não será suspensa. Políticos e analistas pressionam para que as eleições locais sejam mantidas para não enviar um sinal de fraqueza aos cartéis e passar a impressão de que os narcotraficantes têm o poder de tumultuar o processo eleitoral.

"Se não houver eleições, as pessoas que cometeram esse ato terrorista terão vencido", afirmou o analista Alberto Islas. Líderes nacionais do PRI, opositores de Calderón, pediram aos mexicanos que não tenham medo da violência e compareçam às urnas no domingo.

Rivalidade. A morte de Torre está ligada à guerra entre os cartéis de Los Zetas e do Golfo no Estado de Tamaulipas, que faz fronteira com o Texas. Os Zetas são uma dissidência dos traficantes do cartel do Golfo, que se separou no início do ano para faturar com o narcotráfico de maneira independente.

Os Zetas foram formados nos anos 90 por ex-soldados de elite do Exército mexicano, treinados por militares israelenses e americanos, que desertaram e passaram a trabalhar para o cartel do Golfo. Agora, agindo como rivais, os Zetas estão desafiando seus antigos chefões do Golfo e cobrando taxas para que eles usem suas rotas usadas para traficar droga pela fronteira americana.

Preço político. A morte de Torre e a onda de violência podem fazer Calderón pagar um pesado preço político nas eleições de domingo. Pesquisas mostram que os partidos de oposição, principalmente o PRI, devem conquistar a maioria dos cargos no domingo.

Os números mostram também que a maioria dos mexicanos acredita que os narcotraficantes estejam vencendo a guerra contra o governo e, cada vez mais, cresce a indignação popular com a morte de civis surpreendidos por tiroteios entre os bandidos e as forças de segurança do México.

"O custo político será todo debitado na conta do partido do governo", disse Javier Oliva, especialista em segurança nacional da Universidade Nacional Autônoma do México. "As políticas de segurança pública não estão dando resultado."

Violência. Desde que Calderón resolveu endurecer a luta contra os cartéis, em dezembro de 2006, mais de 25 mil pessoas morreram em todo o país. Desde o início do ano, as forças de segurança do México mataram cerca de 300 pessoas somente no Estado de Tamaulipas.

No México, as clínicas de reabilitação têm sido outro alvo dos cartéis. Ontem, um grupo armado assassinou nove pessoas em um centro para recuperação de viciados no norte do país. Há duas semanas, em Chihuahua, cidade a 360 quilômetros de Ciudad Juárez, 19 pessoas foram mortas também em uma clínica de reabilitação. /

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